sexta-feira, 30 de abril de 2010

Dentro de um abraço- Martha Medeiros


"Aonde é que você gostaria de estar agora, neste exato momento?
Fico pensando nos lugares paradisíacos onde já estive, e que não me custaria nada reprisar:
num determinado restaurante de uma ilha grega, na beira de diversas praias do Brasil e do mundo, na casa de bons amigos, em algum vilarejo europeu, numa estrada bela e vazia, no meio de um show espetacular, numa sala de cinema vendo a estreia de um filme muito esperado,
e principalmente, no meu quarto e na minha cama, que nenhum hotel cinco estrelas consegue superar a intimidade da gente é irreproduzível.
Posso também listar os lugares onde não gostaria de estar: num leito de hospital, numa fila de banco, numa reunião de condomínio, presa num elevador, em meio a um trânsito congestionado, numa cadeira de dentista.
E então? Somando os prós e os contras, as boas e más opções, onde, afinal,
é o melhor lugar do mundo?
Dentro de um abraço.
Que lugar melhor para uma criança, para um idoso, para uma mulher apaixonada, para um adolescente com medo, para um doente, para alguém solitário?
Dentro de um abraço é sempre quente, é sempre seguro.
Dentro de um abraço não se ouve o tic-tac dos relógios e, se faltar luz, tanto melhor.
Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço, se dissolve.
Que lugar melhor para um recém-nascido, para um recém-chegado, para um recém-demitido, para um recém-contratado? Dentro de um abraço nenhuma situação é incerta,
o futuro não amedronta, estacionamos confortavelmente em meio ao paraíso.
O rosto contra o peito de quem te abraça, as batidas do coração dele e as suas, o silêncio que sempre se faz durante esse envolvimento físico: nada há para se reivindicar ou agradecer,
dentro de um abraço voz nenhuma se faz necessária, está tudo dito.
Que lugar no mundo é melhor para se estar? Na frente de uma lareira com um livro estupendo, em meio a um estádio lotado vendo seu time golear, num almoço em família onde todos estão se divertindo, num final de tarde de frente para o mar, deitado num parque olhando para o céu,
na cama com a pessoa que você mais ama?
Difícil bater essa última alternativa, mas onde começa o amor, senão dentro do primeiro abraço? Alguns o consideram como algo sufocante, querem logo se desvencilhar dele. Até entendo que há momentos em que é preciso estar fora de alcance, livre de qualquer tentáculo. Esse desejo de se manter solto é legítimo, mas hoje me permita não endossar manifestações de alforria.
Entrando na semana dos namorados, recomendo fazer reserva num local aconchegante e naturalmente aquecido: dentro de um abraço que te baste."

Por pouco tempo

Depois de quase 2 semanas, é bom estar de volta à terrinha. Tenho gostado muito de morar em Macaé, mas nada como a terra da gente.
Como é bom chegar e ver o sorriso de minha mãe ao me pegar na rodoviária. Bom visitar meu pai e perceber que ele está melhor depois de perdas tão grandes em sua vida. Bom ver nosso cão Pitbull ( é seu nome, pois na verdade, é um vira-lata que herdamos de Lalá, sempre ela....) abanando o rabo e correndo pelo quintal.
O que ainda não consigo me acostumar, e acho que não conseguirei nunca, é ver essa casa enorme, vazia.
Mas como não ficarei o fim de semana todo, espero ter a chance de estar junto de pessoas que realmente valem a pena.

Momento novo- Ana Jácomo



"Igualzinho ao que acontece com todas as pessoas,
num trecho ou outro da estrada,
eu já senti tanta dor que parecia que os golpes haviam me quebrado toda por dentro.
Não sabia se era possível juntar os pedaços, por onde começar,
nem se o cansaço me permitiria movimentos na direção de qualquer tentativa.
Quando o susto é grande e dói assim,
a gente precisa de algum tempo para recuperar o fôlego outra vez.
Para voltar a caminhar sem contrair tanto os ombros e a vida.
Um espaço para a gente quase se reinventar.
O tempo passa. O fôlego retorna.
Parece milagre, mas as sementes de cura começam a florescer nos mesmos jardins
onde parecia que nenhuma outra flor brotaria.
A alma é sábia: enquanto achamos que só existe dor,
ela trabalha, em silêncio, para tecer o momento novo.
E ele chega."

domingo, 18 de abril de 2010

Hoje eu grito: É CAMPEÃO!!!!!


Pois é, torcida brasileira.
Enfim, chegou o dia de soltar o grito!!! É CAMPEÃO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Antes, devo confessar que amarelei. Sim, depois do gol do empate do time da gávea, simplesmente desliguei a tv e me tranquei no quarto. Com 38 anos nas costas e com um nervosismo fora do comum, resolvi não arriscar. Mas tenho uma companheira espetacular e que na ânsia de me ver feliz, entrava no quarto e me dava as informações mais importantes. Por intermédio dela, fiquei sabendo do segundo gol do meu Fogão (sem os detalhes da "LOCA" cobrança de El Loco), e do pênalti defendido por Jeferson.
E como ela demorava para entrar no quarto, comecei a temer por mais um 2 a 2. Mas de repente, ela entra e com a tv em volume máximo, grita: "Acabou. amor!! Seu time é campeão!!!"
Ainda não comemorei o necessário, até porque não estava no clima do jogo. Mas quero agradecer a 3 pessoas: minha mulher Renata, tricolor de coração, que hoje se transformou e sofreu como legítima botafoguense; meu pai, Gervásio, responsável pela minha paixão pelo Glorioso; e meu amigo Gustavo, flamenguista, e acima de tudo, amigo de 20 anos, que durante estes 3 últimos anos sempre me ligava para sacanear, e teve o gesto super bacana de me ligar hoje para parabenizar pelo sofrido título.
Agora é comemorar!!!! Deixo um abraço para alvinegros como Álvaro Marcos, Wesley Machado e todos que fazem parte da equipe do blog Estrela Solitária, aqui em Campos.
E dizer que, valeu a pena pra caramba esperar 3 anos para ganhar da urubuzada desta maneira: com Adriano (que não pode ir para Copa) perdendo pênalti, e com 2 gols desta forma, magistralmente batidos pela dupla Mercosul.
E por último fica a indagação: Cadê o "Império do Amor?????????????"
E NINGUÉM CALA ESSE MEU AMOR...
E É POR ISSO QUE EU CANTO ASSIM
É POR TI FOGOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Dar um tempo- Fabricio Carpinejar


Não conheço algo mais irritante do que dar um tempo, para quem pede e para quem recebe.
O casal lembra um amontoado de papéis colados. Papéis presos.
Tentar desdobrar uma carta molhada é difícil. Ela rasga nos vincos.
Tentar sair de um passado sem arranhar é tão difícil quanto.
Vai rasgar de qualquer jeito, porque envolve expectativa e uma boa dose de suspense.
Os pratos vão quebrar, haverá choro, dor de cotovelo, ciúme, inveja, ódio.
É natural explodir. Não é possível arrumar a gravata ou pintar o rosto quando se briga.
Não se fica bonito, o rosto incha com ou sem lágrimas.
Dar um tempo é se reprimir, supor que se sai e se entra em uma vida com indiferença,
sem levar ou deixar algo.
Dar um tempo é uma invenção fácil para não sofrer.
Mas dar um tempo faz sofrer pois não se diz a verdade.
Dar um tempo é igual a praguejar "desapareça da minha frente".
É despejar, escorraçar, dispensar. Não há delicadeza. Aspira ao cinismo.
É um jeito educado de faltar com a educação.
Dar um tempo não deveria existir porque não se deu a eternidade antes.
Quando se dá um tempo é que não há mais tempo para dar,
já se gastou o tempo com a possibilidade de um novo romance.
Só se dá o tempo para avisar que o tempo acabou.
E amor não é consulta, não é terapia, para se controlar o tempo.
Quem conta beijos e olha o relógio insistentemente não estava vivo para dar tempo.
Deveria dar distância, tempo não. Tempo se consome, se acaba, não é mercadoria, não é corpo. Tempo se esgota, como um pássaro lambe as asas e bebe o ar que sobrou de seu vôo.
Qualquer um odeia eufemismo, compaixão, piedade tola.
Odeia ser enganado com sinônimos e atenuantes.
Odeia ser abafado, sonegado, traído por um termo.
Que seja a mais dura palavra, nunca dar um tempo.
Dar um tempo é uma ilusão que não será promovida a esperança.
Dar um tempo é tirar o tempo. Dar um tempo é fingido.
Melhor a clareza do que os modos.
Dar um tempo é covardia, para quem não tem coragem de se despedir.
Dar um tempo é um tchau que não teve a convicção de um adeus.
Dar um tempo não significa nada e é justamente o nada que dói.
Resumir a relação a um ato mecânico dói.
Todos dão um tempo e ninguém pretende ser igual a todos nessa hora.
Espera-se algo que escape do lugar-comum.
Uma frase honesta, autêntica, sublime, ainda que triste.
Não se pode dar um tempo, não existe mais coincidência de tempos entre os dois.
Dar um tempo é roubar o tempo que foi.
Convencionou-se como forma de sair da relação limpo e de banho lavado, sem sinais de violência. Ora, não há maior violência do que dar o tempo.
É mandar matar e acreditar que não se sujou as mãos.
É compatível em maldade com "quero continuar sendo teu amigo".
O que se adia não será cumprido depois.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Anotações sem papel - Carpinejar


A barba avança independente do que deixe para trás.
Eu tive várias vidas mas não terminei nenhuma delas.
O que sei serve apenas para me duvidar.
Temos pouco tempo para nos entender, não entendo como sobra tempo para nos explicar. Deveríamos dar ao amor a mesma religião do ódio. Quem odeia vai toda hora visitar um nome.
A primeira infância não é a primeira morte. Há datas que Deus nos paga a conta.
Deus não chega com a dor, Deus é quando falta ar para rir.
Escolher é desafiar a si mesmo a excluir justamente o que gostaríamos de dizer.
Escrevo como quem mexe na horta. As unhas não lavam as mãos.
A neblina é um rio que anda de barco. O mar sempre devolve o que não conseguiu engolir.
A terra tem mais estômago.
Sinto pena das árvores que são encontradas dias depois de sua morte.
Elas cheiram os frutos que não germinaram. Não isolo o que vivi do que imaginei ter vivido.
A poesia é a desistência de explicar. Eu dormi mais do que as palavras sonharam.
A chuva vem para lermos a casa.
Intimidade é conversar na mesa de café e apoiar o cotovelo em farelos de pão.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Uma pitada de Quintana


"As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho... "
Mário Quintana

Os versos que te fiz - Florbela Espanca


Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem para te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim para te oferecer

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda.
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor,
que eu não dei, guardo os versos mais lindos que te fiz!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Tristeza e um bom exemplo

A cada instante que passa fico mais triste com a situação no Rio, principalmente em Niterói. Agora vejo imagens deste novo deslizamento, as pessoas chorando, desesperadas com a perda de familiares e amigos, e não tem como não me colocar um pouco no lugar delas.

Neste espaço, tentarei não criticar de maneira tão veemente pessoas ou órgãos. Sabe-se muito bem que o problema aconteceu ,principalmente, pela política adotada por vários governantes ao longo dos anos.

Mas neste momento, quero deixar minha solidariedade e carinho a tantas pessoas que continuam a sofrer com esta tragédia. E que por mais difícil que possa parecer, que não percam a fé e a esperança em dias melhores. O maior exemplo que vejo é de pessoas que sofreram com perdas afetivas e materiais e se transformaram em voluntários que ajudam os bombeiros no resgate dos soterrados.

Será que você conseguiria o mesmo?

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Para se privar do invisível - Carpinejar


Não é preciso ter razão para cantar.
Para dar ao corpo uma manhã mais tarde, uma noite mais úmida.
Para decorar a letra tremida da carne.
Canta-se como uma telha solta do telhado, para se confessar de alegria.
Canta-se para não dizer tudo o que resta a dizer.
Para não ser dito o que não cabe, para que sejam lidas as labaredas.
Canta-se para confundir o pão e os insetos, as mãos e os seios, os joelhos e ladeira da chuva. Canta-se para não dormir durante a leitura. Para roçar um vestido. Para se privar do invisível. Canta-se para não assentar o fundo, para retardar o caminho de regresso.
Canta-se para amar o que ainda nem nasceu, para interromper uma recordação triste.
Canta-se ainda que sem voz afinada, sem apetite.
Canta-se como uma poeira luminosa que sobe dos tapetes
e que só é vista na infância ou quando se canta.
Canta-se com o relógio de árvore. Com as ervas mastigadas pelas águas, pela extensão dos cabelos. Canta-se pelo silêncio crespo do vinho, pelo vitral que há no vinho.
Canta-se pelas pedras onduladas das lâmpadas, para se apoiar na velhice das escadas.
Canta-se para ultrapassar a mágoa, para não ter motivos.
Canta-se para embaralhar a confiança e a carícia, desobedecer o ventre, injuriar com um beijo. Canta-se para arrumar os ombros, ajeitar a gola, subir na grama.
Canta-se para alimentar o que não é letra. Para despedir-se do começo.
Canta-se para viver no mesmo dia dos lábios. Pela falta de equilíbrio dos segredos.
Canta-se para persistir quando era o momento de se apagar.
Canta-se para convencer o passado que ele ainda não imaginou o suficiente.
Canta-se para respirar mesmo sem ar. Para respirar debaixo de um corpo.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Silêncio - Oscar Wilde


"Se você não consegue entender o meu silêncio,de nada irá adiantar as palavras, pois é no silêncio das minhas palavras que estão todos os meus maiores sentimentos."

domingo, 4 de abril de 2010

Dedução - Vladimir Maiakóvski

"Não acabarão nunca com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo firme,
fiel e verdadeiramente."

Acácia ou eucalipto - Fabricio Carpinejar


"Não adianta ser fiel ao outro se a gente não é fiel a si.
Mas não é simples assim: arenoso descobrir a nossa própria natureza e aceitá-la.
Conhecer-me significa também não gostar daquilo que sou
e ter que passar o resto da vida ao meu lado.
Até hoje eu só me amei por amor platônico. Nunca tive coragem de me aproximar.
Escrevia cartas, fazia elogios, me criticava, mas sempre controlado, contido, parava quando me julgava ameaçado.Não subestimo a força do engano.
Talvez seja leal ao que meu pai queria ou ao que a minha mãe desejava ou ao que jurei ser a melhor solução para conseguir aprovação da turma.
Quem diz que não gastei uma vida inteira para atender aos anseios dos demais e ainda não descobri as minhas ambições.
Quem diz que não segui escrevendo porque um dia a maldita professora da 4ª série me chamou de escritor e não gostaria de decepcioná-la, muito menos ofender sua intuição.
Minha voz não é aquela que eu escuto. Meu rosto no espelho não é aquele que as pessoas enxergam. Meu beijo não está na minha boca.Posso ser generoso pelo egoísmo. Posso ser amoroso pela tirania. Posso ser educado pela vergonha.
Vê só o quanto uma virtude esconde uma maldade.
Eu sou o resultado ou a origem daquilo que cumpro?
O que tem peso maior: minha vontade ou o ato?
Ao me doar para uma mulher, não desfruto de condições para prometer coisa nenhuma,
pois nem defini o que eu mesmo me ofereço.
De repente, vou me trair e ser fiel no casamento. Ou trair uma relação e ser fiel a mim.
Antes deveria cuidar de ser monogâmico comigo.
Viajava pelo interior do Rio Grande do Sul, com o rosto cochilando na vidraça do ônibus.
De música de fundo, escutava histórias de boiadeiros sobre acácia e o eucalipto, um grande dilema das plantações. Ao escolher a acácia, é natural deixar o gado debaixo das árvores.
Ao plantar eucalipto, não haverá terreno propício ao pasto, ele é arrogante, absorve a água dos arredores, elimina a concorrência e suga a terra com gula.
Diante do impasse, logo problematizei: sou acácia ou eucalipto?
A acácia se oferece inteira, é mais familiar, caseira, procura um ideal de família e casa, transmuda-se em telhado e alimento aos animais.
É recomendada pela sua renúncia, admirada pelo sacrifício voluntarioso.
Quanto mais se anula mais aparece. Ampara o amadurecimento do conjunto, socorre carências. Em compensação, dura menos, de 7 a 10 anos.
E não sobe muito, tem uma altura própria para recolher as crianças em seus galhos.
Ela abdica de grandes vôos para acompanhar de perto os passos em sua folhagem.
O eucalipto é individualista, confiante, não se afeiçoa às carências do lugar, segue sozinho,
desafia os próximos a obedecer seu ritmo, não irá recuar para confortar o solo e os bichos.
Usa o que precisa, aproveita o contexto e se despede para o céu.
Atinge uma altura muito superior à acácia e dura de 25 a 30 anos.
Porta-se com o descaso de estrangeiro, como realmente é; um artista do vento,
flautista das folhas, disposto a render um espetáculo e espalhar suas raízes para atrapalhar a soberania das pedras.
Previsível que todo mundo afirmará que é acácia.
Para não frustrar a expectativa amorosa de entrega incondicional.
Alguns, como eu, tratarão de pensar que são as duas opções, mas não é verdadeiro,
tenho que escolher. Somente a renúncia permitirá que valorize o que ficou.
No momento em que acumulo, não sou nada, não devo nada, não me é exigido nada.
Sequer posso me trair."

sábado, 3 de abril de 2010

Tempo - Drummond


"Entre o gasto dezembro e o florido janeiro,
entre a desmistificação e a expectativa,
tornamos a acreditar, a ser bons meninos,
e como bons meninos reclamamos
a graça dos presentes coloridos.
Nossa idade - velho ou moço - pouco importa.
Importa é nos sentirmos vivos
e alvoroçados mais uma vez, e revestidos de beleza,
a exata beleza que vem dos gestos espontâneos
e do profundo instinto de subsistir
enquanto as coisas ao redor se derretem e somemcomo nuvens errantes no universo estável
Prosseguimos. Reinauguramos. Abrimos os olhos gulosos
a um sol diferente que nos acorda para os descobrimentos
Esta é a magia do tempo
Esta é a colheita particular..."

Responsabilidade - Ana Jácomo


Cansei de me flagrar em circunstâncias em que eu jurava que havia ocorrido uma falha do cenógrafo na montagem do ambiente: tudo o mais poderia estar no lugar correto, mas não era para eu estar ali. Aí era um tal de listar os supostos culpados, lamentar a má sorte, um blablablá triste toda vida, sob o fundo musical de “Ó, Deus, como sou infeliz”.

Muitas cenas depois, porque só o tempo é capaz de nos dar olhos que veem um pouco além das aparências, comecei a encaixar as peças daquelas tais circunstâncias e a perceber que estive exatamente onde eu me coloquei. Nem um centímetro a mais nem a menos.
Eram os meus sentimentos, minhas dores pendentes de cura, minha resistência à mudança, minhas crenças equivocadas sobre mim, que me atraíam para aqueles cenários. Peças encaixadas, descobri que, no fim das contas, a roteirista o tempo todo era eu.
Se a história não me agrada, preciso aprender a reescrevê-la até que se torne parecida com a ideia que passa pelo meu coração.
O roteiro só muda quando eu assumo a minha responsabilidade por ele e me trabalho para ser capaz de modificá-lo. Não adianta culpar o cenógrafo.