segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Desejos - Caio Fernando Abreu



Que não nos faltem bons sentimentos.
Que nos falte egoísmo.
Que nos sobre paciência.
Que sejamos capazes de enxergar algo de bom em cada momento ruim que nos acontecer.
Que não nos falte esperança.
Que novos amigos cheguem.
Que antigos sejam reencontrados.
Que cada caminho escolhido nos reserve boas surpresas.
Que a cada sorriso que uma criança der nos faça ter um bom dia e enxergar uma nova esperança. Que cada um de nós saiba ouvir cada conselho dado por uma pessoa mais velha.
Que não nos falte vontade de sorrir.
Que sejamos leves.
Que sejamos livres de preconceitos.
Que nenhum de nós se esqueça da força que possui.
Que não nos falte fé e amor.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Entrevista com Bruno Peixoto, autor de "O livro dos pequenos mistérios"


Na próxima sexta, dia 21 de dezembro, às 20h - se o mundo não acabar - o ator campista  e irmão deste blogueiro, Bruno Peixoto lança O LIVRO DOS PEQUENOS MISTÉRIOS, aqui na terrinha. Trata-se de um livro de contos escrito em narrativa que remete ao realismo mágico, gênero literário de forte tradição latino-americana.

O lançamento em Campos dos Goytacazes será em um espaço cultural que abriu suas portas há pouco tempo, o  ESTAR MIX, que fica localizado na rua Salvador Correa 117, pertinho da Beneficência Portuguesa.

Bruno Peixoto saiu de Campos aos 17 anos para cursar Veterinária, mas aos poucos sua veia artística falou mais alto. Como já foi dito, ele é ator, assim como a mãe Alcione e o irmão Léo Peixoto - falecido há 11 anos-, dramaturgo, iluminador, diretor e professor de teatro. Tem carreira teatral consolidada em 15 anos de intenso trabalho com grupos e artistas de Belo Horizonte, Cabo Frio e Rio de Janeiro. 
Bati um papo rápido com ele para que nos falasse um pouco mais sobre este momento. tão especial em sua vida. E, como irmão coruja e amante das letras, convido aos amigos  moradores de Campos para esta noite especial.


Como é lançar seu primeiro livro na cidade natal?

- Tem um sabor especial. Há a expectativa de reencontrar amigos do Liceu e pessoas que me conheceram ainda criança. Saí daqui muito jovem e a maioria dos conhecidos daqui não sabe que tipo de artista eu me tornei. Agora saberão um pouco.

Sobre o que fala o livro?
- É um livro de contos com uma temática comum presente em todas as histórias. São os “pequenos mistérios” que o título fala. Para construir as narrativas eu namorei com o realismo mágico, que é um gênero literário muito forte na América Latina e que sempre amei ler. Fui muito influenciado também pelo Eduardo Galeano e pelo Mia Couto. Dois escritores altamente poéticos. Eles me “estimularam” a não temer escrever uma prosa altamente poética.

Você é ator, iluminador e professor de teatro. Como foi a experiência dessa mudança de ares do palco para a escrita?
- Foi muito natural. Fazer teatro é a arte de contar histórias. Escrever contos também. No fundo sou apenas um simples contador de histórias. Mas procurei respeitar cada formato. Há histórias que foram feitas para serem contadas no palco. É só pegar Shakespeare. Se você ler sozinho no quarto pode achar chato. Se fizer uma simples roda de leitura com um grupo de atores a história cresce e te arrebata. Quando escrevia o livro procurei alimentá-lo de forte carga literária. Mas o teatro sempre esteve presente. Tenho viajado com muitos trabalhos teatrais nos últimos anos e o livro foi literalmente escrito na estrada. Também ensino teatro para crianças e jovens. Fui observando ao longo dos anos o que cativa uma criança quando contamos uma história. Essa experiência também está no livro, apesar de serem contos para o público jovem e adulto. Mas a criança tem a qualidade de acreditar quando uma história é bem contada. Os adultos perderam esse “músculo” invisível que faz uma criança acreditar no imaginário. E isso faz falta. Lidar com o imaginário pode ser uma experiência enriquecedora para qualquer idade. Escrevi o livro para esse jovem, esse adulto que só vê e vive essa “vida real”. Por que essa “vida real” não basta para sermos plenos.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Hábito - Mark Twain




"Não nos libertamos de um hábito 
atirando-o pela janela; 
é preciso fazê-lo descer a escada, 
degrau a degrau."

"O livro dos pequenos mistérios" em Campos


Charge do dia- Duke


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Ousadia - Lya Luft


"Apesar de todos os medos, escolho a ousadia.
Apesar dos ferros, construo a dura realidade.
Prefiro a loucura à realidade,
e um par de asas tortas aos limites da comprovação e da segurança.
Eu sou assim, pelo menos assim quero me imaginar:
a que explode o ponto e arqueia a linha,
e traça o contorno que ela mesma há de romper.
                                        Desculpem, mas preciso lhes dizer: Eu quero o delírio."

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Amar - Arthur da Távola



Para conjugar o verbo amar é preciso conjugar o verbo ser.
O amor é exercício de felicidade, não de poder.
Quem ama controla.
E quem controla por amor,
acaba desamando num plano mais profundo,
pois impede a pessoa amada de ser florescer, crescer, cres/Ser...

Acordo com o tempo - Mário Lago


"Eu fiz um acordo com o tempo:
 nem eu fujo dele, nem ele me persegue.
 Um dia a gente se encontra".

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Charge do dia- Duke




Detalhes - Goethe



"Cada dia deveríamos ouvir uma pequena canção,
ler uma boa composição poética
ou um pensamento que nos reconforte,
contemplar um excelente quadro e,
se possível, ter um diálogo amigável
ou um gesto de cordialidade."

Não olhe pra trás






Nem tudo é como você quer
Nem tudo pode ser perfeito
Pode ser fácil se você
Ver o mundo de outro jeito

Se o que é errado ficou certo
As coisas são como elas são
Se a inteligência ficou cega
De tanta informação

Se não faz sentido, discorde comigo
Não é nada demais, são águas passadas
Escolha uma estrada
E não olhe, não olhe prá trás

Você quer encontrar a solução
Sem ter nenhum problema
Insistir em se preocupar demais
Cada escolha é um dilema

Como sempre estou
Mais do seu lado que você
Siga em frente em linha reta
E não procure o que perder

Se não faz sentido, discorde comigo
Não é nada demais, são águas passadas
Escolha uma estrada
E não olhe, não olhe prá trás...

Composição: Alvin L. / Dinho Ouro Preto 

sábado, 1 de dezembro de 2012

Moska no sábadão


Reminiscências de um blogueiro na tarde de sábado



Há tempos não faço uma postagem pessoal por aqui. O corre-corre do dia a dia, trabalho, viagens, casamento, família e outras coisinhas ocupam tempo demais na minha vida. Ainda bem. Já passa longe a época em que tinha tempo livre para escrever, escrever, escrever... E nem sabia se isso de alguma forma me ajudava de verdade. Lá no fundinho, acho que sim. Mas ao mesmo tempo, me prejudicava. 
Hoje venho aqui para agradecer. Ao Cara lá de cima que não me abandona. Não desiste de mim. Ainda um pouco assustado pelo fato do tempo estar passando tão rápido (já escrevi sobre isso aqui algumas vezes..), estou feliz por viver uma fase tão próxima de minha família e pessoas bacanas que vão surgindo pelo caminho.
Sobre essa coisa do tempo passar rápido demais, tive esta semana, a especial notícia de ver minha sobrinha-filha Estela passando para a PUC no Rio. Cursará Letras. A minha menina que vai completar 18 anos em janeiro - caso o mundo não acabe dia 21- será uma universitária. É.....
Hoje ouvi meu sobrinho-filho Yan falando que terá que fazer algumas mudanças em sua vida para estar mais perto e cuidar de uma pessoa muito próxima a ele. Vai renunciar a alguns "luxos" para um jovem de 19 anos, mas terá a chance de ajudar a alguém que já fez muito por ele. Que orgulho do meu moleque!!!
Dezembro entra e junto com ele, teremos o lançamento do primeiro livro do meu irmão, Bruno Peixoto. Um cara que ama o teatro, as artes, as letras... Que com seu jeito introspectivo ajuda as pessoas apenas com o olhar. Que ouve como ninguém e fala pouco. Mas quando fala ou quando escreve, arrebenta!!
Meu Deus, quantas coisas para agradecer.... 
E tantas coisas ainda por fazer....
Esta semana as viagens na volta de Macaé foram menos estressantes. Muitas conversas, risadas, aprendizado... Acho muito bacana a chance de aprendermos com os mais jovens. Nunca me fechei para isso. Estou com 40, embora muitas vezes não me sinta assim. E ter a chance de conviver com uma galera de 25,30,35 anos é muito legal. Mesmo que às vezes eu tenha que escutar pagodes não muito agradáveis nas viagens...rsrs... Mas tudo é válido.
A gente pensa tanto em melhorar de vida, ter mais grana, mais bens, mais tudo....
E às vezes esquecemos de valorizar pequenos momentos. Eu os valorizo. Sempre valorizei, e mais do que nunca quero muito viver estes pequenos momentos.
Valeu Papai do Céu!! Valeu mesmo!!!

Obs: A foto que ilustra a postagem é dos meus sobrinhos-filhos. Já é antiga, deve ter uns 8,9 anos. Mas é eterna.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Entre amigos - Martha Medeiros



Para que serve um amigo?
Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco,
dar carona pra festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra.
Todas as alternativas estão corretas,
porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito.
Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, "A Identidade",
que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho,
que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.
Verdade verdadeira.
Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo contruído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos.
Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências.
Racha a culpa, racha segredos. Um amigo não empresta apenas a prancha.
Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta.
Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país. Um amigo não dá carona apenas pra festa.
Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu.
Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o reveillon.
Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.
Um amigo não segura a barra, apenas.
Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.
Duas dúzias de amigos assim ninguém tem.
Se tiver um, amém.

A indiferença nossa de cada dia - Otto Lara Resende


Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta.
Um poeta é só isso: um certo modo de ver.

O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar... vê, não vendo.
Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia sem ver.
Parece fácil, mas não é. O que nos é familiar, já não desperta curiosidade.
O campo visual da nossa rotina é como um vazio.
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta.
Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe.
De tanto ver, você não vê.
Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo porteiro.
Dava-lhe bom-dia e, às vezes, lhe passava um recado ou uma correspondência.
Um dia, o porteiro cometeu a descortesia de falecer.
Como era ele? Sua cara, sua voz, como se vestia? Não fazia a mínima idéia.
Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer.
Se um dia, no seu lugar estivesse uma girafa cumprindo o rito,
pode ser que ninguém desse por sua ausência.
O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem.
Mas, há sempre o que ver: gente, coisas, bichos.
E vemos? Não, não vemos.
Uma criança vê o que um adulto não vê,
pois tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo.
O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de tão visto, ninguém vê.
Há pai que nunca viu o próprio filho, marido que nunca viu a própria mulher.
Isso exige muito. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia.
É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Capacidade - Gibran Khalil Gibran



“A consciência de uma planta no meio do inverno 
não está voltada para o verão que passou, 
mas para a primavera que irá chegar. 
A planta não pensa nos dias que já foram,
 mas nos que virão. 
Se as plantas estão certas de que a primavera virá, 
por que nós – os humanos – 
não acreditamos que um dia seremos capazes 
de atingir tudo o que queríamos?”

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Cicatrizes - Isabel Allende




Talvez a gente esteja no mundo para procurar o amor,
encontra-lo e perdê-lo, muitas e muitas vezes.
Nascemos de novo a cada amor e,
a cada amor que termina, abre-se uma nova ferida...
Estou cheia de orgulhosas cicatrizes.

Harmonia- Martha Medeiros



No meio, a gente descobre que fazer a coisa certa é sempre um ato revolucionário.
Que é mais produtivo agir do que reagir.
Que a vida não oferece opção: ou você segue, ou você segue.
Que a pior maneira de avaliar a si mesmo é se comparando com os demais.
Que a verdadeira paz é aquela que nasce da verdade.
E que harmonizar o que pensamos,
sentimos e fazemos é um desafio que leva uma vida toda,
esse meio todo."

Eternidade - Cecília Meirelles


Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Um dia...



Parte um

1988-1992

Vinte e poucos anos


“Foi um dia memorável, pois operou grandes mudanças em mim. Mas isso se dá com qualquer vida. Imagine um dia especial na sua vida e pense como teria sido seu percurso sem ele. Faça uma pausa, você que está lendo, e pense na grande corrente de ferro, de ouro, de espinhos ou flores que jamais o teria prendido não fosse o encadeamento do primeiro elo em um dia memorável.”
Charles Dickens, Grandes esperanças
CAPÍTULO UM

O futuro


Sexta-feira, 15 de julho de 1988
Rankeillor Street, Edimburgo

— Acho que o importante é fazer diferença — disse ela. — Mudar alguma coisa, sabe?

— Você está falando de “mudar o mundo”?

— Não o mundo inteiro. Só um pouquinho ao nosso redor.

Os dois ficaram em silêncio por um tempo, os corpos entrelaçados na cama de solteiro, depois começaram a rir em voz baixa, na mesma altura do amanhecer.

— Nem acredito que eu disse isso — murmurou ela. — Um pouco batido, não é?

— É, um pouco batido.

— Estou tentando servir de inspiração. Preparar sua alma negra para a grande aventura à sua frente. — Virou-se e olhou para ele. — Não que você precise disso. Imagino que já esteja com o futuro bem-planejado, muito bem-planejado. Deve ter até um fluxograma ou coisa assim guardado em algum lugar.

— Até parece.

— Então, o que você vai fazer? Qual é o seu grande plano?

— Bom, meus pais vão guardar minhas coisas na casa deles, depois vou passar uns dias no apartamento de Londres, ver alguns amigos. Depois França...

— Muito legal...

— Depois talvez China, ver o que acontece por lá, quem sabe ir até a Índia, viajar um pouco pelo país...

— Viajar — ela suspirou. — Tão previsível.

— O que há de errado em viajar?

— É mais uma forma de fugir da realidade.

— Eu acho que a realidade é algo muito superestimado — contestou, esperando que a frase soasse cínica e carismática.
Ela fungou.

— É, imagino que sim, para quem pode pagar. Mas por que não dizer simplesmente: “Vou tirar umas férias de dois anos”? É a mesma coisa.

— Porque viajar amplia os horizontes — respondeu ele, apoiando-se sobre um cotovelo e dando um beijo nela.

— Ah, acho que os seus horizontes já estão bem ampliados — comentou ela, virando a cabeça para o outro lado, ao menos naquele momento.

Os dois se ajeitaram outra vez no travesseiro. — De qualquer forma, eu não estava falando do que você vai fazer no mês que vem, estava falando do futuro mesmo, sei lá...
— Fez uma pausa, como se vislumbrasse uma ideia fantástica, uma quinta dimensão. — Quando você tiver uns quarenta anos. O que você quer ser quando tiver quarenta anos?

— Quarenta? — Ele pareceu se debater com aquele conceito. — Não sei. Será que posso responder “rico”?

— Mas isso é tão superficial.

— Está certo. Então, “famoso”. — Começou a esfregar o nariz no pescoço dela. — Um pouco mórbido tudo isso, não?

— Não é mórbido, é... fascinante.

— Fascinante! — Agora ele imitava a voz dela, seu leve sotaque de Yorkshire, fazendo-a parecer bobinha. Isso sempre acontecia com ela, garotos bacanas falando com voz engraçada, como se um sotaque fosse algo estranho e incomum, e não pela primeira vez sentiu um estremecimento de aversão em relação a ele que a tranquilizou. Afastou-se até apoiar as costas na parede fria.

— Sim, fascinante. E não é para menos, é? Com todas essas possibilidades. Como disse o diretor, “as portas da oportunidade se abriram...”.

— “Os seus nomes estarão nos jornais de amanhã...”

— Isso é pouco provável.

— Então por que você está tão empolgada?

— Empolgada? Eu estou morrendo de medo.

— Eu também. Saco... — Virou-se de repente e pegou o maço de cigarros no chão ao lado da cama, como para acalmar os nervos. — Quarenta anos de idade. Quarenta anos. Puta inferno.

Achando graça na aflição dele, ela resolveu piorar um pouco mais o cenário.

— Então, o que você vai estar fazendo quando tiver quarenta anos?

Ele acendeu o cigarro, pensativo.

— Bom, Em, o negócio é...
— “Em”? Quem é “Em”?

— Todo mundo chama você de Em. Eu ouvi.

— É, os meus amigos me chamam de Em.

— Então, posso te chamar de Em?

— Vai nessa, Dex.

— Bom, eu já andei pensando nessa história de “ficar velho” e decidi que vou continuar exatamente como sou no momento.

Dexter Mayhew. Ela o observou por entre a franja, recostado na cabeceira acolchoada da cama barata, e, mesmo sem óculos, entendeu muito bem por que ele queria continuar exatamente daquele jeito. Olhos fechados, o cigarro colado languidamente no lábio inferior, a luz da manhã filtrada pelo tom avermelhado das cortinas aquecendo um lado do rosto, ele parecia estar sempre posando para uma fotografia. Emma Morley considerava “bonitão” um termo banal, do século XIX, mas na verdade não havia outra palavra que o descrevesse, a não ser talvez “lindo”.

O rosto era daqueles em que você enxerga os ossos por baixo da pele, como se até a caveira fosse bonita. Um nariz afilado brilhava um pouco com a oleosidade, olheiras tão carregadas que pareciam hematomas, medalhas de honra por todos os cigarros e noites em claro perdendo deliberadamente para colegiais de Bedales no strip poker. Havia algo de felino em suas feições: sobrancelhas finas, a boca intencionalmente amuada, lábios um tanto sombrios e grossos, mas agora secos e rachados, arroxeados pelo vinho tinto búlgaro. Ainda bem que o cabelo era horrível, curto na nuca e nos lados, com um topetinho ridículo na frente.

Fosse qual fosse o gel que usava, já tinha perdido o efeito e agora o topete parecia fofo e atrevido, como um chapeuzinho idiota.

Ainda com os olhos fechados, ele exalou a fumaça pelo nariz. Sabia muito bem que estava sendo observado, porque enfiou a mão debaixo da axila, inflando os bíceps e os peitorais. De onde vinham aqueles músculos?

Por certo de nenhuma atividade esportiva, a não ser que nadar nu ou jogar sinuca fossem considerados esporte. Provavelmente era a boa saúde herdada da família, junto com as ações, participações nos lucros e móveis finos. Então ele era bonitão, lindo até, com uma cueca samba-canção estampada na altura dos ossos do quadril, e por alguma razão estava ali em sua cama de solteira naquele pequeno quarto alugado ao término de quatro anos de faculdade. “Bonitão”! Quem você pensa que é? Jane Eyre? Hora de crescer. Seja razoável. Não se deixe iludir.
Emma tirou o cigarro dos lábios dele.

— Eu posso imaginar como você vai ser aos quarenta anos — falou, um tom de malícia na voz. — Sei muito bem o que vai acontecer.

Dexter sorriu sem abrir os olhos.

— Então, diga.

— Tudo bem... — Ela se mexeu na cama, o edredom preso nas axilas.

— Você vai estar num carro esporte com a capota arriada em Kensington ou Chelsea, num desses lugares, e o mais incrível nesse carro é o fato de ser silencioso, porque todos os carros vão ser silenciosos em... sei lá quando... 2006?

Ele apertou os olhos, fazendo a conta.

— 2004...

— E o carro está na King’s Road a dez centímetros do chão, sua barriguinha está espremida embaixo do volante de couro como uma almofadinha e você está com aquelas luvas sem dedos, já com cabelo rareando e sem queixo. Você é um homem grandão num carro pequeno, comum bronzeado de peru assado...

— Vamos mudar de assunto?

— E tem uma mulher ao seu lado, de óculos escuros, sua terceira... não, quarta esposa, muito bonita, modelo... não, ex-modelo, vinte e três anos, que você conheceu enquanto ela posava no capô de um carro num salão do automóvel em Nice ou coisa assim, muito bonita e burra como uma porta...

— Bom, isso é legal. Algum filho?

— Não, sem filhos, só três divórcios. É uma sexta-feira de julho, vocês estão a caminho de uma casa de campo e no minúsculo porta-malas do seu carro voador tem raquetes de tênis, tacos de críquete e um cesto cheio de vinhos e uvas sul-africanas, aspargos e umas pobres codornas.

O vento bate no seu para-brisa e você se sente bem, muito bem consigo mesmo, e a esposa número três, ou quatro, sei lá, sorri para você com duzentos dentes brancos e brilhantes, e você sorri de volta e tenta não pensar no fato de vocês dois não terem nada, absolutamente nada, a dizer um ao outro.

Emma parou de repente. “Você está falando como uma doida”, disse para si mesma. “Tente não falar como uma doida.”

— Se serve de consolo, é claro que todos já teremos morrido numa guerra nuclear bem antes disso! — observou com leveza, mas ele continuou com o cenho franzido.
— Então acho melhor eu ir embora. Já que sou tão superficial e depravado...

— Não. Não vai, não — ela pediu, talvez um pouco ansiosa demais.

— São quatro da manhã.

Ele se ajeitou na cama até ficar com o rosto a poucos centímetros do dela.

— Não sei de onde você tirou essa ideia a meu respeito, você mal me conhece.

— Eu conheço o seu tipo.

— Meu tipo?

— Eu já vi você com a sua turma depois das aulas de literatura moderna, gritando uns com os outros, organizando festas black-tie...

— Eu nem tenho um smoking. E muito menos sou de gritar...

— Passeando de iate no Mediterrâneo em feriados prolongados, rá, rá, rá...

— Então, se eu sou assim tão canalha... — Agora a mão dele estava no quadril dela.

— E é mesmo.

— ...por que você está dormindo comigo? — A mão alojou-se na pele quente e macia da coxa.

— Na verdade acho que eu não dormi com você, dormi?

— Bem, isso depende. — Inclinou-se e beijou-a. — Defina os seus termos. — A mão tateava a base da coluna, uma perna enfiada entre as pernas dela.

— A propósito — murmurou ela, a boca colada na dele.

— O quê? — Sentiu a perna dela enlaçar a sua e puxá-lo mais para perto.

— Você precisa escovar os dentes.

— Eu não ligo se você não escovar.

— Mas está horrível — ela riu. — Sua boca está com gosto de vinho e cigarro.

— Tudo bem. A sua também está.

A cabeça dela se afastou num tranco, interrompendo o beijo.

— É mesmo?

— Eu não ligo. Eu gosto de vinho e de cigarro.

— Só um segundo. — Ela empurrou o edredom, passando por cima dele.
— Aonde você vai? — Encostou a mão nas costas nuas que se afastavam.

— Só vou até o trono — respondeu, pegando os óculos de cima da pilha de livros ao lado da cama: óculos grandes, armação preta, modelo comum.

— “Trono”, “trono”... Desculpe, não sei do que se trata...

Emma se levantou com um braço atravessado sobre o peito, tomando o cuidado de ficar de costas para ele.

— Não vá embora — falou enquanto se afastava, enganchando dois dedos no elástico para ajeitar a calcinha no alto das coxas. — E não vale se masturbar enquanto eu estiver fora.

Dexter expirou pelo nariz e se ajeitou na cama, examinando o mal-ajambrado quarto que ela aluga, sabendo com absoluta certeza que em algum lugar entre aqueles cartões-postais de arte e cartazes de peças de teatro alternativo haveria uma fotografia do Nelson Mandela, como uma espécie de namorado ideal que só existe no mundo dos sonhos. Já tinha visto muitos quartos como aquele nesses últimos quatro anos, espa lhados pela cidade como a cena de um crime, quartos onde nunca se estava a mais de dois metros de um disco da Nina Simone. Embora raramente tivesse visitado duas vezes o mesmo quarto, tudo era muito familiar. Os velhos abajures e os vasos de plantas desolados, o cheiro de sabão em pó em lençóis baratos que mal cabiam nas camas. Ela também tinha aquela paixão artística por fotomontagens, tão comum nas garotas: fotos de colegas da faculdade e da família misturando-se com desenhos de Chagall, Vermeer e Kandinsky, os Che Guevaras, os Woody Allens e os Samuel Becketts. Nada era neutro, tudo afirmava um ponto de vista. O quarto era um manifesto, e com um suspiro Dexter identificou-a como uma daquelas garotas que usavam “burguês” como um termo ofensivo. Ele entendia que “fascista” pudesse ter conotações negativas, mas gostava da palavra “burguês” e de tudo que tal termo implicava.

Segurança, viagens, boa comida, boas maneiras, ambição; por que deveria se sentir culpado por isso?

Observou as nuvens de fumaça saindo da própria boca. Tateando em busca de um cinzeiro, encontrou um livro ao lado da cama. A insustentável leveza do ser, com a lombada bem vincada nas partes “eróticas”.

O problema dessas garotas rebeldes e individualistas é que todas eram exatamente iguais. Outro livro: O homem que confundiu sua mulher com um chapéu. “Que imbecil”, pensou, certo de que jamais cometeria aquele erro.

Com vinte e três anos, a visão que Dexter Mayhew tinha do próprio futuro não era mais nítida que a de Emma Morley. Queria ser bem-sucedido, que os pais se orgulhassem dele e que tivesse a oportunidade de dormir com mais de uma mulher ao mesmo tempo, mas como tornar todas essas coisas compatíveis? Queria ser citado em revistas e esperava um dia ver uma retrospectiva do seu trabalho, sem ter uma clara noção do que seria esse trabalho. Queria aproveitar a vida ao máximo, mas sem confusões nem complicações. Queria viver de forma que, se fosse fotografado casualmente, a foto saísse bonita. As coisas deveriam estar certas. Diversão; devia haver bastante diversão e pouca tristeza, não mais que o absolutamente necessário.

Não era um grande plano, e já tinha havido alguns tropeços. Esta noite, por exemplo, poderia ter repercussões: lágrimas, telefonemas desagradáveis e acusações. Talvez o melhor fosse ir embora o quanto antes.

Olhou para as roupas jogadas ao lado, preparando-se para uma fuga.

Foi alertado por um solavanco e o estampido de uma antiga descarga vindos do banheiro e logo recolocou o livro no lugar, encontrando embaixo da cama uma latinha amarela de mostarda Colman’s, que abriu e confirmou que, sim, continha camisinhas e pequenos restos acinzentados de um baseado que pareciam fezes de rato. Com a possibilidade de sexo e drogas que aquela pequena lata amarela continha ficou mais animado, e afinal decidiu que poderia ficar um pouco mais.

No banheiro, Emma Morley limpava manchas de pasta de dente nos cantos da boca e pensava se tudo aquilo não seria um grande equívoco.

Lá estava ela, depois de quatro anos vagando em um deserto romântico, finalmente, finalmente na cama com alguém de quem gostava, de quem gostara desde que o tinha visto pela primeira numa festa em 1984, e que em poucas horas estaria indo embora. Provavelmente para sempre. Era quase certo que não a convidaria para ir à China, sem falar que ela estava boicotando a China. E ele estava certo, não estava? Dexter Mayhew. Na verdade desconfiava que ele nem fosse assim tão brilhante, quem sabe até um pouco cheio de si, mas era popular. Engraçado e — não havia como negar — muito atraente. Então, por que estava sendo tão indeli cada e sarcástica? Por que não conseguia se mostrar divertida e autoconfiante como as garotas exuberantes e artificiais com quem ele costumava andar?

Viu a luz da manhã pela minúscula janela do banheiro. Sobriedade. Penteou o cabelo desgrenhado com a ponta dos dedos fazendo careta, depois puxou a corrente da antiga caixa de descarga e voltou para o quarto.

Na cama, Dexter viu quando ela apareceu na porta, vestindo a beca e o barrete que todos foram obrigados a alugar para a cerimônia de formatura, a perna enganchada no batente da porta de forma jocosa e sedutora, o canudo do diploma na mão. Emma espiou por cima dos óculos e cobriu um olho com o barrete.

— Que tal?

— Fica bem em você. Gostei da pose sedutora. Agora tire isso e volte para a cama.

— De jeito nenhum. Isso me custou trinta pratas. Esse dinheiro vai ter que valer alguma coisa. — Abriu a beca como se fosse uma capa de vampiro.

Dexter tentou segurar uma das pontas, mas ela desfechou um golpe com o diploma enrolado e sentou na beira da cama, dobrando as hastes dos óculos e tirando a beca. Ele deu uma última olhada nas costas nuas e na curva dos seios dela, e logo tudo desapareceu debaixo de uma camiseta preta, que exigia desarmamento nuclear unilateral já. “É isso aí”, pensou. “Nada melhor que uma longa camiseta preta com dizeres políticos para acabar com o desejo sexual, a não ser talvez um disco da Tracy Chapman.”

Resignado, pegou o diploma do chão, deslizou o elástico até o final do tubo e anunciou: “Inglês e história, com louvor, primeira classe.”

— Morra de inveja, garotão — tentando pegar o diploma. — Ei, cuidado com isso.

— Vai mandar enquadrar, é?

— Minha mãe e meu pai vão transformar isso em papel de parede.

— Enrolou o diploma bem apertado, ajeitando as extremidades. — Vão mandar fazer descansos de pratos. Minha mãe vai tatuar isso nas costas.

— Aliás, onde estão os seus pais?

— Ah, estão logo aí no quarto ao lado.

Ele vacilou.

— Como assim, é mesmo?

Ela gargalhou.

— Claro que não. Já voltaram para Leeds. Papai acha que hotel é coisa de bacana. — Escondeu o diploma embaixo da cama. — Chega para lá — falou, empurrando-o para o lado frio do colchão. Dexter deixou que ela se deitasse e procurou uma posição, passando um braço ao redor dos ombros da garota meio sem jeito e beijando seu pescoço de forma especulativa. Emma virou-se para ele, o queixo encolhido.

— Dex?

— Hum.

— Tudo bem se a gente só ficar abraçadinho?

— Claro. Se é isso o que você quer — respondeu, galante, embora na verdade nunca tivesse entendido muito bem o sentido daquilo. Dormir abraçado era para tias-avós e ursinhos de pelúcia. Dava cãibras. O melhor mesmo seria admitir logo a derrota e ir para casa o mais rápido possível, mas ela estava deitando a cabeça em seu ombro, ocupando território, e os dois ficaram assim por algum tempo, rígidos e pouco à vontade, antes de ela dizer:

— Nem acredito que eu falei “ficar abraçadinho”. Que coisa horrível...

Desculpe.

Ele sorriu.

— Tudo bem. Pelo menos não foi aconchegado.

— Aconchegado é bem ruim.

— Ou juntinhos.

— Juntinhos é terrível. Vamos prometer nunca ficar juntinhos — sugeriu ela, arrependendo-se imediatamente de ter falado aquilo. Os dois juntos? Parecia pouco provável. Ficaram em silêncio outra vez. Durante as últimas oito horas eles tinham conversado e se beijado, e agora sentiam aquela fadiga corporal profunda que chega junto com a alvorada. Melros cantavam no jardim dos fundos malcuidado.

— Adoro esse som — ele falou com a boca nos cabelos dela. — Melros ao amanhecer.

— Eu odeio. Dá a impressão de que vou me arrepender de ter feito alguma coisa.

— É por isso que eu adoro — observou Dex, mais uma vez buscando um efeito cínico e carismático. Logo depois acrescentou: — Mas por que isso?

— Por que o quê?

— Você vai se arrepender de ter feito alguma coisa?

— Você está falando disso? — Apertou a mão dele. — Ah, espero que sim. Ainda não sei. Pergunte isso de manhã. E você?

Ele pressionou a boca contra o topo da cabeça de Emma.
— Claro que não — respondeu e pensou: “Isso nunca, nunca mais pode acontecer.”

Satisfeita com a resposta, Emma chegou um pouco mais perto.

— A gente precisa dormir um pouco.

— Por quê? Não tem nada para fazer amanhã. Nenhum prazo, nenhum trabalho...

— Só o resto das nossas vidas se abrindo à nossa frente — comentou ela sonolenta, sentindo o cheiro dele, morno, fresco e maravilhoso, e ao mesmo tempo com um arrepio de ansiedade percorrendo seu corpo ao pensar no que estava por vir: uma vida adulta e independente. Mas ela não se sentia adulta. Não estava preparada, de jeito nenhum. Era como se um alarme de incêndio tivesse disparado de madrugada e ela se encontrasse no meio da rua com as roupas emboladas no braço. Se não tinha aprendido nada, o que iria fazer? Como preencheria os próximos dias? Não tinha a menor ideia.

“O negócio era ser corajosa e ousada e realizar alguma coisa”, pensou consigo mesma. Não exatamente mudar o mundo, só um pouco à sua volta. Sair por aí com o diploma com honras de primeiro lugar em duas matérias, muita paixão e a nova máquina de escrever elétrica Smith Corona e trabalhar duro em... alguma coisa. Mudar a vida das pessoas através da arte, talvez. Escrever coisas bonitas. Agradar aos amigos, continuar fiel aos próprios princípios, viver plenamente, bem e com paixão.

Experimentar coisas novas. Amar e ser amada, se possível. Comer com moderação. Coisas assim.

Não era exatamente uma linha filosófica, nem algo que pudesse ser compartilhado, menos ainda com aquele homem, mas era no que acreditava.

E até agora as primeiras poucas horas de vida adulta independente tinham sido razoáveis. Talvez de manhã, depois de um chá com aspirina, ela conseguisse até reunir coragem para chamá-lo de volta para a cama.

Eles estariam sóbrios então, o que não facilitaria muito as coisas, mas talvez fosse bom. Nas poucas vezes em que tinha ido para a cama com meninos ela sempre acabara gargalhando ou chorando, e seria bom tentar algo que não fosse nem uma coisa nem outra. Ficou imaginando se ainda tinha camisinhas na lata de mostarda. Não havia razão para não ter, pois estavam lá da última vez em que verificou: fevereiro de 1987.

Vince, um engenheiro químico cheio de pelos nas costas e que tinha assoado o nariz na fronha dela. Bons tempos aqueles, bons tempos...
Lá fora, começava a clarear. Dexter podia ver o tom rosado do novo dia filtrado pelas pesadas cortinas de inverno que vinham junto com aqueles quartos alugados. Tomando cuidado para não acordá-la, passou o braço por cima da garota, jogou a ponta de cigarro na caneca de vinho e olhou para o teto. Seria difícil dormir agora. Melhor desvendar o estampado da toalha cinza até ela estar completamente adormecida e então se esgueirar e sair em silêncio.

Claro que sair desse jeito significaria nunca mais voltar a ver Emma. Ele se perguntou se ela ficaria chateada e achou que sim: em geral elas achavam essas coisas importantes. Mas por que ele se importaria? Tinha passado muito bem sem ela durante quatro anos. Até a noite passada achava que seu nome era Anna, mas na festa não tinha conseguido desviar o olhar. Por que não a notara até então? Examinou o rosto adormecido ao seu lado.

Era bonita, mas parecia constrangida por isso. O cabelo tingido de ruivo era malcortado quase de propósito, talvez por ela mesma em frente ao espelho ou pela garota grandona e barulhenta com quem dividia o apartamento, Tilly sei lá o quê. A pele pálida e com acne indicava muito tempo passado em bibliotecas ou tomando cerveja em bares, e os óculos faziam com que parecesse uma coruja afetada. O queixo era suave e gorducho, embora talvez fosse só um pouco de papada (ou será que “gorducho” e “papada” eram coisas que não se podiam dizer naquele momento? Assim como não se podia dizer que tinha uns peitos incríveis, mesmo que fosse verdade, sem que ela ficasse toda ofendida).

Deixa para lá, vamos voltar ao rosto. Havia um pequeno quisto sebáceo na ponta do nariz pequeno e bem-feito e um borrifo de minúsculas manchas vermelhas na testa, mas fora isso era inegável que aquele rosto... bem, o rosto dela era uma maravilha. Os olhos estavam fechados e ele percebeu que não se lembrava bem da cor deles, apenas que eram grandes, brilhantes e irônicos, assim como os dois vincos nos cantos da boca rasgada, parênteses marcantes que se aprofundavam quando ela sorria, o que acontecia com frequência. Bochechas macias com sardas rosadas, almofadas de carne que pareciam quentes ao toque. Sem batom, os lábios cor de morango estavam sempre apertados, mesmo quando sorriam, como se ela não quisesse mostrar os dentes, um pouco grandes para a boca, os da frente meio lascados, tudo isso dando a impressão de estar sempre escondendo alguma coisa, uma risada, uma observação inteligente ou uma piada secreta fantástica.
Se fosse embora agora, provavelmente nunca mais veria aquele rosto, a não ser talvez em alguma terrível reunião dali a dez anos. Ela estaria mais gorda e se diria decepcionada, reclamaria por ele ter ido embora sem se despedir. Melhor sair em silêncio, e nada de reuniões comemorativas.

Seguir em frente, olhar para o futuro. Haveria muitos outros rostos bonitos à frente.

Mas, assim que tomou a decisão, a boca da moça se abriu num sorriso largo e ela falou, sem abrir os olhos:

— Então, qual é a sua conclusão, Dex?

— Sobre o quê, Em?

— Sobre eu e você. Você acha que é amor? — deu uma risada grave, os lábios bem apertados.

— Vê se dorme, tá?

— Então pare de olhar para o meu nariz. — Abriu os olhos, azul-esverdeados, brilhantes e astutos. — Que dia é amanhã? — resmungou.

— Você quer dizer hoje?

— Hoje. Esse dia novo e radiante que nos espera.

— É uma sexta. Sexta o dia inteiro. Aliás, é o Dia de São Swithin.*

— E o que isso quer dizer?

— É uma tradição. Se chover hoje, vai chover pelos próximos quarenta dias, ou durante todo o verão, algo assim.

Emma franziu o cenho.

— Isso não faz sentido.

— Nem é para fazer. É uma superstição.

— Vai chover onde? Sempre está chovendo em algum lugar.

— No túmulo de São Swithin. Ele está enterrado perto da catedral de Winchester.

— Como você sabe tudo isso?

— Eu estudei lá.

— Uau — ela falou baixinho no travesseiro.

— “Se chover no Dia de São Swithin / Por quarenta dias permanecerá assim.”

— Que belo poema.

— Bom, eu só estava parafraseando.
Ela riu mais uma vez, depois ergueu a cabeça, sonolenta.

— Escuta, Dex?

— Em?

— E se não chover hoje?

— Hu-hum.

— O que você vai fazer mais tarde?

“Diga que vai estar ocupado.”

— Nada especial — respondeu.

— Então vamos fazer alguma coisa? Quer dizer, nós dois?

“Espere ela dormir e saia de fininho.”

— Sim. Tudo bem — concordou. — Vamos fazer alguma coisa.

Emma deixou a cabeça cair no travesseiro outra vez.

— Um dia novinho em folha — murmurou.

— É, um dia novinho em folha.

* Segundo a tradição inglesa, as condições meteorológicas do dia 15 de julho, o Dia de São Swithin (o bispo de Winchester, clamado por duas doações para caridade e construção de igrejas), permanecerão por quarenta dias. (N. da E.)

Começo do livro "Um dia" , de David Nicholls, desde já, um dos meus prediletos.

Você e o mundo - Ghandi


"Não tente adivinhar o que as pessoas pensam a seu respeito.
Faça a sua parte, se doe sem medo.
O que importa mesmo é o que você é.
Mesmo que outras pessoas não se importem.
Atitudes simples podem melhorar sua vida.
Não julgue para não ser julgado.
Um covarde é incapaz de demonstrar amor
- isso é privilégio dos corajosos."

De mãos dadas - Carlos Drummond de Andrade




Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria,
o tempo presente,
os homens presentes,
a vida presente.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

"Sorte ou azar", "nova" música de Cazuza, 30 anos depois...





Fã ardoroso de Cazuza, como fica bem claro com a homenagem feita com o nome deste blog, fui pego de surpresa, ao final da exibição de hoje da fraca novela "Salve Jorge", que apenas esta noite fui ver. Eis que no fim do capítulo, nos créditos finais, uma voz muito conhecida deste blogueiro começa a cantar uma música que até então, nunca ouvira. Trata-se de "Sorte ou azar", composição de Frejat, maior parceiro de Cazuza, para o disco de estreia do Barão Vermelho, em 1982. Isso mesmo!! A música tem 30 anos e não foi incluída no primeiro LP do grupo porque o produtor Ezequiel Neves não gostou, já que continha em seu título a palavra "azar". 
Fazendo as frenéticas buscas pelas internet, assim que a ouvi, descubro que no dia 14 de outubro, o "Fantástico" abordou o assunto e ainda mostrou um "clipe", se assim pode se chamar, com o Barão velho de guerra nos estúdios fazendo um novo arranjo para a canção.
Para aqueles, que assim como eu, são fãs de Cazuza, a emoção bateu forte.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Estado agudo de felicidade - Clarice Lispector





"É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas.
É tão silencioso.
Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois?
Dificílimo contar.
Olhei pra você fixamente por instantes.
Tais momentos são meu segredo.
Houve o que se chama de comunhão perfeita.
Eu chamo isto de estado agudo de felicidade."

O amor no colo - Carpinejar


A dor não pede compreensão, pede respeito.
Não abandonar a cadeira, ficar sentado na posição em que ela é mais aguda.
Vejo homens que não têm coragem de terminar o relacionamento.
Que não esclarecem que acabou. Que deixam que os outros entendam o que desejam entender. Que preferem fugir do barraco e do abraço esmurrado.
Saem de mansinho, explicando que é melhor assim: não falar nada, não explicar,
acontece com todo mundo.
Encostam a porta de sua casa (não trancam) e partem para outra vida.
Não é melhor assim. Não tem como abafar os ruídos do choro.
O corpo não é um travesseiro. Seca com os soluços.
Não é melhor assim. Haverá gritos, disputa, danos.
É como beber um remédio, sem empurrar a colher para longe ou moldar cara feia.
É engolir o gosto ruim da boca, agüentar o desgosto da falta do beijo.
Será idiota recitar Vinicius de Moraes: "que seja infinito enquanto dure".
A despedida não é lugar para poesia. Haverá uma estranha compaixão pelo passado,
a língua recolhendo as lágrimas, o rosto pelo avesso. Haverá sua mulher batendo em seu peito, perguntando: "Por que fez isso comigo?"
Haverá a indignação como última esperança.
Haverá a hesitação entre consolar e brigar, entre devolver o corte e amparar.
Vejo homens que somente encontram força para seduzir uma mulher,
não para se distanciar dela.
Para iniciar uma história, não têm medo, não têm receio de falar.
Para encerrar, são evasivos, oblíquos, falsos. Mandam mensageiros.
Não recolhem seus pertences na hora. Voltarão um novo dia para buscar suas coisas.
Não toleram resolver o desespero e datar as lembranças.
Guardam a risada histérica para o domingo longe dali.
Mas estar ali é o que o homem precisa. Não virar as costas.
Fechar uma história é manter a dignidade de um rosto levantado,
ouvindo o que não se quer escutar.
Espantado com o que se tornou para aquela mulher que amava.
Porque aquilo que ela diz também é verdade. Mesmo que seja desonesto.
Desgraçadamente, há mais desertores do que homens no mundo. Deveriam olhar fora de si. Observar, por exemplo, a dor de uma mãe que perde seu filho no parto.
O médico colocará o filho morto no colo materno.
É cruel e - ao mesmo tempo - necessário.
Para que compreenda que ele morreu. Para que ela o veja e desista de procurá-lo.
Para que ela perceba que os nove meses não foram invenção, que a gestação não foi loucura.
Que o pequeno realmente existiu, que as contrações realmente existiram,
que ela tentou trazê-lo à tona.
Que possa se afastar da promessa de uma vida,
imaginar seu cheiro e batizar seu rosto por um instante.
Descobrir a insuportável e delicada memória que teve um fim, não um final feliz.
Ainda que a dor arrebente, ainda é melhor assim.

A fé - Rubem Alves


 
 
Há pessoas que nos fazem voar...
(...) A gente se encontra com elas e leva um bruta susto.
Primeiro, porque o vento começa a soprar dentro da gente, e lá,
de cantos escondidos de nossas montanhas e florestas internas,
aves selvagens começam a bater asas,
e a gente não sabia que tais entidades mágicas moravam dentro de nós,
e elas nos surpreendem, e nós nos descobrimos mais selvagens,
mais bonitos, mais leves, com uma vontade incrível de subir até as alturas,
saltando, saltando de penhascos, pendurados numa asa-delta
(acho que o nome disso é fé…)"

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Importância- Caio Fernando Abreu


Manifesto pela maciez - Carpinejar







Esqueça a terminologia psiquiátrica, os tipos de transtornos.
Vou facilitar sua vida. Há somente dois tipos de pessoas.
As pessoas macias e as pessoas duras.
As pessoas macias não são gordas. Não é isso. Podem ser magras. 
A maciez é um traço de personalidade.
Gente doce, afetiva, abraça com calma, escuta com interesse.
A maciez é um estado de ternura. A pele recebe, os olhos recebem, há uma tranquilidade calorosa, uma vontade de permanecer falando à toa.
Maciez é uma generosidade natural. 
A pessoa macia é ótima para dar colo, e guardar confidências.
Você está triste e a pessoa macia logo nos cuida.
Você está feliz e a pessoa macia aumenta nossa felicidade.
A pessoa macia canta suas músicas prediletas no box. Brinca com crianças. Para na rua a elogiar os cachorros na rua. Demora a sair da mesa. 
Gosta do seu trabalho e não reclama mesmo quando está doente.
Já a pessoa dura é inflexível, teimosa, orgulhosa.
Logo que nos aproximamos e ela já solicita espaço, evita o maior contato. 
Ela não abraça, mas esbarra. Bate nas tuas costas como se fosse porta.  
Não beija as bochechas, beija o ar.
Está sempre falando mal de alguém ou de si mesma.
A pessoa dura é de madeira, de ferro. Não se emociona. Não ri. 
Não fica muito tempo casada com ninguém.
Ela se diz independente, mas é fóbica de intimidade.
Não suporta bebês, odeia a família dos outros, sexo é apenas ginástica.
A pessoa dura é fácil de identificar.
Você fica pesada depois que a encontra. Você se sente mal. 
Explorada. Esgotada. 
Você parece que perdeu sua alma depois de conversar com ela.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Palavras





                                             A palavra é uma roupa que a gente veste.

Uns gostam de palavras curtas.

Outros usam roupa em excesso.

Existem os que jogam palavra fora.

Pior são os que usam em desalinho.

Alguns usam palavras raras.

Poucos ostentam caras.

Tem quem nunca troca.

Tem quem usa a dos outros.

A maioria não sabe o que veste.

Alguns sabem e fingem que não.

E tem quem nunca usa a roupa certa pra ocasião.

Tem os que se ajeitam bem com poucas peças.

Outros se enrolam em um vocabulário de muitas.

Tem gente que estraga tudo que usa.

E você... com quais palavras você se despe?



Viviane Mosé in “ Toda palavra”