domingo, 28 de outubro de 2012

Esse brilho em seu olhar- Léo Jaime


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Estado agudo de felicidade - Clarice Lispector





"É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas.
É tão silencioso.
Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois?
Dificílimo contar.
Olhei pra você fixamente por instantes.
Tais momentos são meu segredo.
Houve o que se chama de comunhão perfeita.
Eu chamo isto de estado agudo de felicidade."

O amor no colo - Carpinejar


A dor não pede compreensão, pede respeito.
Não abandonar a cadeira, ficar sentado na posição em que ela é mais aguda.
Vejo homens que não têm coragem de terminar o relacionamento.
Que não esclarecem que acabou. Que deixam que os outros entendam o que desejam entender. Que preferem fugir do barraco e do abraço esmurrado.
Saem de mansinho, explicando que é melhor assim: não falar nada, não explicar,
acontece com todo mundo.
Encostam a porta de sua casa (não trancam) e partem para outra vida.
Não é melhor assim. Não tem como abafar os ruídos do choro.
O corpo não é um travesseiro. Seca com os soluços.
Não é melhor assim. Haverá gritos, disputa, danos.
É como beber um remédio, sem empurrar a colher para longe ou moldar cara feia.
É engolir o gosto ruim da boca, agüentar o desgosto da falta do beijo.
Será idiota recitar Vinicius de Moraes: "que seja infinito enquanto dure".
A despedida não é lugar para poesia. Haverá uma estranha compaixão pelo passado,
a língua recolhendo as lágrimas, o rosto pelo avesso. Haverá sua mulher batendo em seu peito, perguntando: "Por que fez isso comigo?"
Haverá a indignação como última esperança.
Haverá a hesitação entre consolar e brigar, entre devolver o corte e amparar.
Vejo homens que somente encontram força para seduzir uma mulher,
não para se distanciar dela.
Para iniciar uma história, não têm medo, não têm receio de falar.
Para encerrar, são evasivos, oblíquos, falsos. Mandam mensageiros.
Não recolhem seus pertences na hora. Voltarão um novo dia para buscar suas coisas.
Não toleram resolver o desespero e datar as lembranças.
Guardam a risada histérica para o domingo longe dali.
Mas estar ali é o que o homem precisa. Não virar as costas.
Fechar uma história é manter a dignidade de um rosto levantado,
ouvindo o que não se quer escutar.
Espantado com o que se tornou para aquela mulher que amava.
Porque aquilo que ela diz também é verdade. Mesmo que seja desonesto.
Desgraçadamente, há mais desertores do que homens no mundo. Deveriam olhar fora de si. Observar, por exemplo, a dor de uma mãe que perde seu filho no parto.
O médico colocará o filho morto no colo materno.
É cruel e - ao mesmo tempo - necessário.
Para que compreenda que ele morreu. Para que ela o veja e desista de procurá-lo.
Para que ela perceba que os nove meses não foram invenção, que a gestação não foi loucura.
Que o pequeno realmente existiu, que as contrações realmente existiram,
que ela tentou trazê-lo à tona.
Que possa se afastar da promessa de uma vida,
imaginar seu cheiro e batizar seu rosto por um instante.
Descobrir a insuportável e delicada memória que teve um fim, não um final feliz.
Ainda que a dor arrebente, ainda é melhor assim.

A fé - Rubem Alves


 
 
Há pessoas que nos fazem voar...
(...) A gente se encontra com elas e leva um bruta susto.
Primeiro, porque o vento começa a soprar dentro da gente, e lá,
de cantos escondidos de nossas montanhas e florestas internas,
aves selvagens começam a bater asas,
e a gente não sabia que tais entidades mágicas moravam dentro de nós,
e elas nos surpreendem, e nós nos descobrimos mais selvagens,
mais bonitos, mais leves, com uma vontade incrível de subir até as alturas,
saltando, saltando de penhascos, pendurados numa asa-delta
(acho que o nome disso é fé…)"

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Importância- Caio Fernando Abreu


Manifesto pela maciez - Carpinejar







Esqueça a terminologia psiquiátrica, os tipos de transtornos.
Vou facilitar sua vida. Há somente dois tipos de pessoas.
As pessoas macias e as pessoas duras.
As pessoas macias não são gordas. Não é isso. Podem ser magras. 
A maciez é um traço de personalidade.
Gente doce, afetiva, abraça com calma, escuta com interesse.
A maciez é um estado de ternura. A pele recebe, os olhos recebem, há uma tranquilidade calorosa, uma vontade de permanecer falando à toa.
Maciez é uma generosidade natural. 
A pessoa macia é ótima para dar colo, e guardar confidências.
Você está triste e a pessoa macia logo nos cuida.
Você está feliz e a pessoa macia aumenta nossa felicidade.
A pessoa macia canta suas músicas prediletas no box. Brinca com crianças. Para na rua a elogiar os cachorros na rua. Demora a sair da mesa. 
Gosta do seu trabalho e não reclama mesmo quando está doente.
Já a pessoa dura é inflexível, teimosa, orgulhosa.
Logo que nos aproximamos e ela já solicita espaço, evita o maior contato. 
Ela não abraça, mas esbarra. Bate nas tuas costas como se fosse porta.  
Não beija as bochechas, beija o ar.
Está sempre falando mal de alguém ou de si mesma.
A pessoa dura é de madeira, de ferro. Não se emociona. Não ri. 
Não fica muito tempo casada com ninguém.
Ela se diz independente, mas é fóbica de intimidade.
Não suporta bebês, odeia a família dos outros, sexo é apenas ginástica.
A pessoa dura é fácil de identificar.
Você fica pesada depois que a encontra. Você se sente mal. 
Explorada. Esgotada. 
Você parece que perdeu sua alma depois de conversar com ela.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Palavras





                                             A palavra é uma roupa que a gente veste.

Uns gostam de palavras curtas.

Outros usam roupa em excesso.

Existem os que jogam palavra fora.

Pior são os que usam em desalinho.

Alguns usam palavras raras.

Poucos ostentam caras.

Tem quem nunca troca.

Tem quem usa a dos outros.

A maioria não sabe o que veste.

Alguns sabem e fingem que não.

E tem quem nunca usa a roupa certa pra ocasião.

Tem os que se ajeitam bem com poucas peças.

Outros se enrolam em um vocabulário de muitas.

Tem gente que estraga tudo que usa.

E você... com quais palavras você se despe?



Viviane Mosé in “ Toda palavra”

sábado, 20 de outubro de 2012

Uma dose de Cazuza para começar bem o dia...


No dia em que o Barão Vermelho volta à ativa depois de alguns anos de parada, faço aqui minha homenagem ao primeiro vocalista de um dos meus grupos de rock predileto. Além de ser meu cantor preferido.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Tempo - Mário Lago


“O tempo não comprou passagem de volta”

O silêncio, o tempo... - Antoine Saint-Exupéry




Nunca dês ouvidos àqueles que, no desejo de te servir,
te aconselham a renunciar a uma das tuas aspirações.
Tu bem sabes qual é a tua vocação, pois a sentes exercer pressão sobre ti.
E, se a atraiçoas, é a ti que te desfiguras.
Mas fica sabendo que a tua verdade se fará lentamente,
pois ela é nascimento de árvore e não descoberta de uma fórmula.
O tempo é que desempenha papel mais importante,
porque se trata de te tornares outro e de subires uma montanha difícil.
Porque o ser novo, que é unidade libertada no meio da confusão das coisas,
não se te impõe como a solução de um enigma,
mas como um apaziguamento de litígios e uma cura de ferimentos.
E só virás a conhecer o seu poder, uma vez que ele se tiver realizado.
Nada me pareceu tão útil ao homem como o silêncio e a lentidão.
Por isso os tenho honrado sempre como deuses por demais esquecidos.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Ser amigo de si - Martha Medeiros

 
 
 
"Amigar-se consigo também passa pelo que muitos chamam de egoísmo,
 mas será? 
Se você faz algo de bom para si próprio 
estará automaticamente fazendo mal para os outros? 
Ora, faça o bem para si e acredite: ninguém vai se chatear com isso. 
Negue-se a participar de coisas em que não acredita 
ou que simplesmente o aborrecem. 
Presenteie-se com boa música, bons livros e boas conversas.
 Não troque sua paz por encenação. 
Não faça nada que o desagrade só para agradar aos outros. 
Mas seja gentil e educado, isso reforça laços,
 está incluído no projeto "ser amigo de si mesmo".

Nem tudo é fácil- Cecília Meireles



É difícil fazer alguém feliz,
assim como é fácil fazer triste.
É difícil dizer eu te amo,
assim como é fácil não dizer nada
É difícil valorizar um amor,
assim como é fácil perdê-lo para sempre.
É difícil agradecer pelo dia de hoje,
assim como é fácil viver mais um dia.
É difícil enxergar o que a vida traz de bom,
assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua.
É difícil se convencer de que se é feliz,
assim como é fácil achar que sempre falta algo.
É difícil fazer alguém sorrir,
assim como é fácil fazer chorar.
É difícil colocar-se no lugar de alguém,
assim como é fácil olhar para o próprio umbigo.
Se você errou, peça desculpas...
É difícil pedir perdão?
Mas quem disse que é fácil ser perdoado?
Se alguém errou com você, perdoa-o...É difícil perdoar?
Mas quem disse que é fácil se arrepender?
Se você sente algo, diga...É difícil se abrir?
Mas quem disse que é fácil encontrar alguém que queira escutar?
Se alguém reclama de você, ouça...
É difícil ouvir certas coisas?
Mas quem disse que é fácil ouvir você?
Se alguém te ama, ame-o...É difícil entregar-se?
Mas quem disse que é fácil ser feliz?
Nem tudo é fácil na vida...
Mas, com certeza, nada é impossível
Precisamos acreditar, ter fé e lutar
para que não apenas sonhemos,
mas também tornemos todos esses desejos, realidade!

Cecília Meireles

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Homens e mulheres - Carlos Drummond de Andrade


Os homens distinguem-se pelo que fazem, 
as mulheres pelo que levam os homens a fazer.

Aula de Direito



     Uma manhã, quando nosso novo professor de "Introdução ao Direito"
    entrou na sala, a primeira coisa que fez foi perguntar o nome a um
                aluno que estava sentado na primeira fila:
                             - Como te chamas?
                         - Chamo-me Juan, senhor.
    - Saia de minha aula e não quero que voltes nunca mais! - gritou o
                          desagradável professor.
        Juan estava desconcertado. Quando voltou a si, levantou-se
     rapidamente, recolheu suas coisas e saiu da sala. Todos estávamos
             assustados e indignados porém ninguem falou nada.
   - Agora sim! - e perguntou o professor - para que servem as leis?...
   Seguíamos assustados porém pouco a pouco começamos a responder à sua
                                 pergunta:
               - Para que haja uma ordem em nossa sociedade.
                      - Não! - respondia o professor.
                            - Para cumpri-las.
                                  - Não!
            - Para que as pessoas erradas paguem por seus atos.
                                  - Não!!
            - Será que ninguém sabe responder a esta pergunta?!
          - Para que haja justiça - falou tímidamente uma garota.
    - Até que enfim! É isso... para que haja justiça. E agora, para que
                             serve a justiça?
     Todos começávamos a ficar incomodados pela atitude tão grosseira.
                       Porém, seguíamos respondendo:
                - Para salvaguardar os direitos humanos...
                - Bem, que mais? - perguntava o professor.
 - Para diferençar o certo do errado...  Para premiar a quem faz o bem...
        - Ok, não está mal porém... respondam a esta pergunta: agi
             corretamente ao expulsar Juan da sala de aula?...
                 Todos ficamos calados, ninguem respondia.
                 - Quero uma resposta decidida e unânime!
                 - Não!! - respondemos todos a uma só voz.
               - Poderia dizer-se que cometi uma injustiça?
                                 - Sim!!!
     - E por que ninguem fez nada a respeito? Para que queremos leis e
      regras se não dispomos da vontade necessária para pratica-las?
   - Cada um de vocês tem a obrigação de reclamar quando presenciar uma
         injustiça. Todos. Não voltem a ficar calados, nunca mais!
             - Vá buscar o Juan - disse, olhando-me fixamente.
     Naquele dia recebi a lição mais prática no meu curso de Direito.
      Quando não defendemos nossos direitos perdemos a dignidade e a
                         dignidade não se negocia.

Doce medo- Lya Luft

"Tenho medo da dor de tua ausência
que me queima por dentro.
E da ternura eu tenho medo,
dessa beleza das noites secretas
quando chegas sempre como se fosse a única vez.
Tenho medo de que um dia queiras cessar
esse rio de águas ardentes
onde mais do que os corpos tocam-se as almas,
anjos desatinados luzindo no breu. "