quinta-feira, 24 de junho de 2010

Intensa- Ana Jácomo


Sou dessa leva de gente que tem como sina ver demais.
Sentir demais.
Amar quase do tamanho do amor.
Traço de nascença, uma estranha dádiva que,
durante temporadas,
pra facilitar a própria vida,
egoísmo que seja,
a gente tenta disfarçar de tudo que é maneira que aprende.
Mas não tem jeito, nunca terá,
nascer assim é irremediável,
o que é preciso é desaprender o medo.

Última página- Flora Figueiredo


Mais uma vez o tempo me assusta.
Passa afobado pelo meu dia,
atropela minha hora,
despreza minha agenda.
Corre prepotente a disputar lugar com a ventania.
O tempo envelhece e não se emenda.
Deveria haver algum decreto que obrigasse o tempo a desacelerar e a respeitar meu projeto.
Só assim, eu daria contados livros que vão se empilhando,
das melodias que estão me aguardando,
das saudades que venho sentindo,
das verdades que eu ando mentindo,
das promessas que venho esquecendo,
dos impulsos que sigo contendo,
dos prazeres que chegam partindo,
dos receios que partem, voltando.
Agora, que redijo a página final,
percebo o tanto de caminho percorrido ao impulso da hora que vai me acelerando.
Apesar do tempo e sua pressa desleal,
agradeço a Deus por ter vivido,
amanhecer e continuar teimando.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Insista- Carpinejar


Sempre insista. Fale mais do que seja possível pensar. Insista.
Temos que ter a capacidade de superar as resistências.
Toda primeira conversa enfrentará uma série de inconvenientes. Mas insista.
Não recue com a gafe, com o estardalhaço, com a vergonha. Siga adiante.
Comece a rir sozinha. Rir é receber a pergunta: o que você está rindo? Rir é ser perguntado.
Não há motivo para rir, rir é se abraçar. Minha risada é meu gemido público.
Acordar me deixa excitado.
Talvez aquela amiga não queira namorá-lo para não estragar a amizade.
Portanto, diga: quero hoje estragar nossa amizade. Estragar de jeito.
Arruinar nossa amizade. Corromper nossa amizade.
Estrague fundo, o amor pode estar recolhido nela.
Mas não aceite tão rápido o que ela não acredita. É disfarce, vivemos disfarçados de normalzinho, de ponderado, de retraído, porque a verdade quando surge faz atitudes impensadas,
como comer algodão-doce nesta terça-feira diante de uma escola de normalistas.
Que saudades de acenar para uma freira dirigindo um fusca.
Deus é uma freira dirigindo um fusca. Tenho saudades de me exibir cortando laranjas.
As tiras simétricas, os cabelos loiros da laranjeira.
Tenho saudade de passear com a minha laranjeira.
Não se explique, insista.
Eu não vou ficar esperando alguém me salvar. Eu mesmo me salvo.
Eu mesmo me arrumo para a loucura.
Insista. O apaixonado cria sua boca. Cria sua boca para cada boca.
Caso tenha prometido ir atrás dele, vá.
Telefone, ainda que atrasada dois anos da promessa.
Volte atrás, não queria pensar com os olhos, a boca são olhos mais atentos.
Não se intimide ao encontrar seu homem no momento errado. É sempre o momento errado.
Seja o momento errado da vida dele. Mas seja parte da vida dele.
Seja o erro mais contundente da vida dele. Seja a vida do seu erro, para ele errar mais seguido.
Talvez aquele amigo não converse para manter a aparência de misterioso.
Talvez ele nem saiba conversar, seja incompetente. Insista.
Uma hora ele vai tomar um porre do seu silêncio, sentar no meio-fio e falar aramaico.
Todo homem guardado uma hora fala aramaico.
Insista, esteja perto para o sermão dos pássaros no viaduto.
A vida mete medo quando ela não é formalidade,
não temos como nos defender do que parte dos dentes.
Tenha um medo assombroso da vida, que é mais justo,
deixe a morte com ciúme e inveja, deixe a morte sem dançar.
Não fique articulando frases inteligentes, comoventes, certas. Insista.
Sei o valor de uma fantasia, mas insista.
Tropeçar ainda é andar, pedir desculpa ainda é avançar, concentre-se na dispersão.
Ninguém quer falar com ninguém. Mas insista.
Na sala do dentista, no trem, no ônibus, no elevador. Insista.
O que mais precisamos é estranheza para reencontrar a intimidade.
Não há nada íntimo que não tenha sido estranho um dia.
Seja estranho com o ascensorista, com o porteiro do prédio, com a colega.
Declare-se apaixonado antecipadamente. Depois encontre um jeito de pagar.
Ame por empréstimo.
Ame devendo.
Ame falindo.
Mas não crie arrependimentos por aquilo que não foi feito.
Sejamos mais reais em nossas dores.
Tudo o que não aconteceu é perfeito.
Dê chance para a imperfeição. Insista.
Estou cansado de me defender - sou só ataque.
Insisto.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Saudade- Martha Medeiros


Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche."

Martha Medeiros

sábado, 19 de junho de 2010

Fim de semana Djavan

Mais Saramago


"As palavras proferidas pelo coração
não têm língua que as articule.
Retém-nas um nó na garganta
e só nos olhos é que se pode ler."

Atos e consequências-José Saramago


Se podes olhar vê, se podes ver, repara.…
se antes de cada ato nosso,
nos puséssemos a prever todas as consequências dele,
a pensar nelas a sério,
primeiro as imediatas,
depois as prováveis,
depois as possíveis,
depois as imagináveis,
não chegaríamos sequer a mover-nos
de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar."

in Ensaio sobre a cegueira.

Fim de semana Djavan

Sem palavras- Balzac


"As mulheres têm um inimitável talento
para exprimir seus sentimentos sem empregar palavras demasiado vivas;
sua eloqüência está sobretudo no acento,
no gesto,
na atitude
e nos olhares."

em "Mulher de trinta anos"

Fim de semana com Djavan é bem melhor..

E se você estiver no Rio...



Meu irmãozinho no palco arrebentando como sempre!!! Puta orgulho desse cara!!!
LOCAL: CENTRO CULTURAL LAURINDA SANTOS LOBO
Rua Monte Alegre 306, Santa Teresa.
HOJE ÀS 8 DA NOITE.

ENTRADA GRATUITA
SINOPSE:Em uma metrópole, um mendigo acompanhado por um fiel escudeiro, entra em esado de surto e delírio, interagindo com a realidade a sua volta e refletindo a própria miséria e abandono através das falas dos principais personagens da obra de William Shakespeare.
AS JORNADAS DE UM GRUPO
A Trilogia - Jornadas pretende discutir a função social do trágico e do lúdico enquanto características formadoras do teatro ocidental, como eles sobrevivem, se inserem, se modernizam em uma sociedade fortemente globalizada, onde os valores regionais e específicos de cada cultura são diluídos e abafados a cada dia. Utiliza o teatro como instrumento consciente de reflexão e perpetuação de nossa cultura, tanto como brasileiros quanto como latino-americanos e seres humanos inseridos em um contexto social politizado.Pautada na direção artística de Jiddu Saldanha, iniciou-se em 2008 com a esquete O Cão Sem Plumas. No mesmo ano criamos o espetáculo Jornada Shakespeare - Terror, Miséria e Paixão na Obra de William Shakespeare. O texto é uma organização de trechos de "Rei Lear", "A tragédia de Ricardo III", "Hamlet" e "A tempestade" feita por Jiddu Saldanha e Bruno Peixoto. Jornada de Paz Tempo de Guerra, montado em 2009, é a última parte dessa trilogia.


Ficha Técnica
Direção: Jiddu Saldanha
Pesquisa de Textos: Bruno Peixoto e Jiddu Saldanha
Dramaturgo: José Facury
Iluminação: Quatro por Quatro
Figurinos, Cenografia e Trilha Sonora: Jiddu Saldanha
Fotografias: André Amaral
Maquiagem: Bárbara Morais
Elenco: Bárbara Morais e Bruno Peixoto
Produção: Bruno Peixoto

COM TATO
Bruno Peixoto - (21)92051572
Jiddu Saldanha-(22)26483763 /(21) 92485170
e-mails:
bichodeporco@gmail.com.br
brunopeixotocordeiro@gmail.com
bichodeporco.blogspot.com

domingo, 13 de junho de 2010

É só me pedir- Caio Fernando Abreu

"Eu entro nesse barco, é só me pedir.
Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou...
Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes.
Mudo o visual, deixo o cabelo crescer,
começo a comer direito, vou todo dia pra academia
Mas você tem que remar também.
Eu desisto fácil, você sabe.
E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos,
mas eu entro nesse barco, é só me pedir.
Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia.
Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo.
Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir.
Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto.
Eu te ensino a nadar, juro!
Mas você tem que me prometer que vai tentar,
que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças!
Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena.
Que por você vale a pena.
Que por nós vale a pena.
Remar.
Re-amar.
Amar..."

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Boas lembranças



Tenho ótimas recordações deste feriado de hoje, o Corpus Christi.
No período em que morei em Cabo Frio, de 1980 a 1989, como todo estudante daquela época, ia para a Praça Porto Rocha participar da grande festa religiosa que acontece por lá neste dia, e colaborar com a feitura dos tradicionais tapetes de sal. Curiosamente, as lembranças que me vem à mente agora, é que neste dia o tempo estava sempre nublado ou chuvoso. Então a expectativa aumentava, pois temíamos que nosso trabalho fosse literalmente por água abaixo. Mas nunca aconteceu. Como não sou católico, não participava da procissão ao fim do dia, mas o bom mesmo era a farra. A tensão da guerra de tintas. Passear ao redor da praça e paquerar meninas dos outros colégios. Estudava no Colégio Estadual Miguel Couto, durante boa parte do período mencionado, e ainda nos era "oferecido" alguns pontinhos em matérias como Moral e Cívica, OSPB (ainda existem Moral e Cívica e OSPB??) e Religião. Como abrir mão disso???????? Hoje estou com uma baita vontade de dar um pulinho por lá. O tempo está nublado, estou em Macaé, portanto mais pertinho, e vendo o vídeo que postei abaixo, enviado por minha mãe, alguém que sabe muito mais sobre o valor do tempo aqui na Terra do que eu, bateu nostalgia....
Desculpem o momento "túnel do tempo", mas foi inevitável. Pena que tanta coisa mudou na querida Cabo Frio de lá pra cá. Tal como Campos, a instabilidade política se instalou no município. Mas estou cansado de falar de política, e acho que vocês também estão de saco cheio de ler sobre as mesmíssimas coisas, não é???
Um dia de muita paz e ótimo feriado a todos!!
*Postagem originalmente feita no Sociedade Blog.

Conversinhas- Walnize Carvalho


No teatro da Vida procure ocupar papéis alternados. Ora “palco”, ora “platéia” e outras vezes “bastidores”.
Revezando funções dá para se ver o “espetáculo” de vários ângulos e matizes.
Aprenda com o “eclipse”. Um astro deixa de ser visível no todo ou em parte mas nem por isso – sol e lua – deixam de dar um “show” no céu.
• Fale... Olhe. E principalmente escute. Estamos tão carentes de ouvintes!..
• Ouça o papo de um idoso por mais repetitiva que possa ser a sua história.
• Se permita chorar em público, a se olhar no espelhinho dos carros estacionados nas ruas, a perguntar como a máquina do banco funciona, a cantarolar empurrando carrinho no supermercado sem se preocupar de estar pagando “mico”.
• Saiba distinguir até que ponto você é “bom” ou é apenas “útil” para alguém.
• Cuide para que o seu corpo, não tenha ossos enfraquecidos como seu espírito não sofre de “osteoporose”.
• Aprenda a se fazer companhia. Solidão nem sempre é isolamento.
• Procure ter pares no seu dia-a-dia.
Ter par não é só ter “par romântico”.
Podemos ter parceria em idéias, gostos, prazeres independente de idade e sexo.
• Tenha como meta a palavra “entusiasmo”.
Ele é que nos faz caminhar, em qualquer idade, em qualquer ocasião ou oportunidade.
Ânimo sempre! Quer seja para comprar aquele vestido tão sonhado na vitrina ou aquele batom no camelô da esquina.
• Organize sua agenda pessoal mas não se esqueça de colocar nela compromissos literários e culturais.
• Esqueça as marcas do tempo em sua face. Não queira enrugar a alma.
• Suavize seus atos rotineiros. Não os faça como se cumprisse tarefas.
• E ao acordar descortine o dia como se ouvisse o chamamento:
“Hoje tem espetáculo”! e responda:
- “Tem, sim senhor”.
Verifique qual o papel a você determinado. Abrace-o com garra. E “sucesso”!."