sexta-feira, 22 de junho de 2012

Faz de conta - Clarice Lispector

"Do coração contraído veio o tremor gigantesco duma forte dor abalada, do corpo todo o abalo — e em sutis caretas de rosto e de corpo afinal com a dificuldade de um petróleo rasgando a terra — veio afinal o grande choro seco, choro mudo sem som algum até para ela mesma, aquele que ela não havia adivinhado, aquele que não quisera jamais e não previra — sacudida como a árvore forte que é mais profundamente abalada que a árvore frágil — afinal rebentados canos e veias, então sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que dela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela não estivesse pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade e pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante, faz de conta que amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos de perplexidade quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que ela era sábia bastante para desfazer os nós de corda de marinheiro que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua pois ela era lunar, faz de conta que ela fechasse os olhos e seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos de gratidão, faz de conta que tudo o que tinha não era faz de conta, faz de conta que se descontraía o peito e uma luz douradíssima e leve a guiava por uma floresta de açudes mudos e de tranqüilas mortalidades, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando por dentro — pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado; ela saíra agora da voracidade de viver. Lembrou-se de escrever a Ulisses contando o que se passara, mas nada se passara dizível em palavras escritas ou faladas, era bom aquele sistema que o amado inventara: o que não soubesse ou não pudesse dizer, escreveria e lhe daria o papel mudamente — mas dessa vez não havia sequer o que contar."

in  Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Dormindo sempre juntos, na mesma hora -Carpinejar




Quando sua companhia se levanta, rola para cheirar o travesseiro dela?
 Você é apaixonado por dividir, desculpe informar.
 É constrangedor confessar a dependência, mas não resta alternativa.
Nunca será mais sozinho. É uma simbiose amorosa por dentro das lembranças, dos hábitos, que surge no modo de repartir uma tangerina e pôr o açúcar no café.
Uma necessidade de primeiro servir para depois saciar as próprias ansiedades.
Entregou os pontos ao abandonar seu horário para dormir. Renunciou ao livre-arbítrio no momento de atender ao chamado sedutor de sua esposa. 
- É tarde, te espero? 
Aquela desistência foi fatal. Pode ter classificado o gesto como uma exceção, só que gostou de verdade, gostou imensamente de adormecer com sua mulher. Ambos apagando o abajur em igual instante, depois de ler, de rir, de brincar. Sincronizaram o relógio dos batimentos cardíacos e nunca houve mais atraso de beijo.
Amor eterno é quando um não consegue mais dormir sem o outro. Simples assim. Deseja descansar, convoca sua mulher na sala.
- Vem, tá na hora! 
E ela, que estava envolvida com um filme ou um programa de tevê, nem reclama, nem diz mais um minutinho, ajeita os ombros no cobertor do seu abraço e segue junto.
Lado a lado no espelho do banheiro, escovam os dentes, ajeitam o rosto, colocam roupas folgadas. Reina uma sincronia dos movimentos, uma disciplina na admiração. Alguns até confundem com tédio, porém, é intimidade: não precisa falar para se entender. Se silêncio com ódio é submissão, silêncio com ternura é concordância.
Escoteiros do casamento, entram no mar branco dos lençóis cada um do seu lado: ela pela margem esquerda, ele pela margem direita. E centram os corpos para fazer conchinhas encostando as cabeças.
Um casal apaixonado ocupa menos do que uma cama de solteiro: terminam agarrados, sobrepostos.
Você se dá conta de que não deita mais sozinho há décadas. É uma compulsão olfativa. Está no escritório trabalhando de madrugada e ela abre a porta para convidá-lo: 
- Vem, tá na hora!
E não estranha a ordem, obedece, sequer medita sobre o motivo da adesão. Vai sem preguiça alguma, sem aviso de bocejo, ainda que não esteja com vontade, ainda que tenha uma porção de tarefas e problemas a resolver. Larga as urgências pela metade e se prontifica a acompanhá-la.
Casal quando se ama dorme na mesma hora. E não suportará morrer longe. O sonho é também morrer na mesma hora. Com as respirações próximas.

REALPOLITIKAGEM, por Luis Fernando Veríssimo

                                                                                    Charge: Bira   


"Realpolitik" é um termo conveniente para desculpar o baixo oportunismo, contradições ideológicas e calhordice em geral. O termo nasceu na Alemanha e tem uma longa história, sendo invocado sempre que um acordo ou um arranjo politico agride o bom-senso ou a moral. Há uma graduação na "realpolitik" que vai do tolerável (uma acomodação com o vizinho do lado para assegurar a paz no prédio, mesmo tendo que aceitar o cachorro) ao indefensável (o pacto Stalin/Hitler no começo da Segunda Guerra Mundial, por exemplo). É difícil saber onde colocar o pacto Lula/Maluf nessa escala. O hipotético acordo com o vizinho é um sacrifício pelo entendimento e o Stalin estava tentando ganhar tempo até ter um exército. No acordo com o Maluf trocou-se uma história e uma coerência por um minuto e pouco a mais de espaço para o candidato do PT na TV. Ó Lula!

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Marcelo Freixo, do PSOL, lança candidatura à prefeitura do Rio




Moro em Campos-RJ, e aqui as opções para voto em outubro são escassas. Normal nessa cidade, infelizmente. O candidato dos meus sonhos mora no Rio. É esse cara aí de cima ao lado de Wagner Moura. E lancou sua candidatura hoje com o apoio de boa parte da classe artística, como se vê no texto abaixo:

"O deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL, inspirou, no cinema, o deputado Diogo Fraga, personagem que elabora, em Tropa de Elite 2, o “dossiê das milícias”. Chegou a hora de a classe artística retribuir. E atores e cantores, de fato, mostram-se empenhados na candidatura de Freixo à prefeitura do Rio, lançada nesta segunda-feira no Rio. O destaque do encontro foi Wagner Moura, o capitão Nascimento da ficção, que disse estar “totalmente aberto” a ajudar. Mas a adesão vai bem mais longe. Em carta, Ivan Lins, Luiz Eduardo Soares, Leonardo Boff e Frei Betto manifestaram apoio. Djavan, Chico Buarque e Caetano Veloso também já estão envolvidos na campanha.


“Estou totalmente aberto para ajudar no que for preciso. O que eles propuserem eu faço, se tiver que aparecer na televisão, apareço”, disse Wagner Moura, que abriu sua casa para um discurso de Freixo à classe artística. “Eu juntei as pessoas que conhecia e evidentemente as pessoas que conheço estão ligadas a minha área de atuação, que são os artistas. Houve evidente retração do apoio dos artistas no apoio aos políticos com o episódio do mensalão. Os artistas tradicionalmente se alinhavam à esquerda e ao PT especialmente. Acabaram se retraindo. Acho que já é hora de romper esse medo de se expor”, afirmou Moura.



A exposição de gente famosa é uma tentativa de multiplicar a visibilidade de Freixo. E compensar uma limitação da candidatura: o tempo de televisão do PSOL será de apenas um minuto. “Temos pouco tempo na televisão por não aceitarmos fazer alianças espúrias, mas vamos utilizar as redes sociais, que hoje gera influência enorme no Rio de Janeiro. Usaremos também a militância na rua, que está acreditado. Assim, será possível que tenhamos uma primavera carioca”, disse Freixo. Por enquanto, a única aliança do PSOL no Rio será com o PCB, que apoiará o partido na eleição majoritária. 



Enquanto os políticos do PSOL gritavam ao microfone para pedir apoio ao candidato, Freixo, sem alterar a voz, fez suas alegações. “A corrupção no Rio não é só guardanapo na cabeça, mas é uma questão estrutural”, afirmou, em relação às imagens divulgadas de Fernando Cavendish com o secretariado de Sérgio Cabral com guardanapos na cabeça em um restaurante de Paris. “A única campanha que pode ter vitória política sem ter vitória eleitoral é a nossa. Não fazemos qualquer coisa para chegarmos ao poder”, afirmou o deputado.



O atual prefeito Eduardo Paes, que conta com o apoio do governo estadual e federal, terá 14 minutos e uma aliança de quase todos os partidos. “Vamos enfrentar o gigante, mas, como diz Marcelo Yuka (vice de Freixo e ex-baterista do grupo O Rappa), gigante tem canela fina”, afirmou. 



Marcelo Freixo ficou famoso pelo combate às milícias bem antes de Tropa de Elite. A sua atuação na área dos direitos humanos e no combate às milícias em 2007, quando presidiu uma CPI que indiciou 225 envolvidos, atraiu a atenção da classe artística. Se no filme o deputado Fraga entrega um dossiê aos jornalistas, na vida real o deputado atuou em parceria com jornalistas e soube utilizar reportagens para convencer os colegas de Legislativo a aprovar a abertura da CPI. 



A campanha, claro, terá momentos importantes na zona oeste, onde atuava a maior milícia do Rio. “Vou fazer agenda na zona oeste. Não farei disso uma guerra particular. A milícia não é problema meu, mas do Rio de Janeiro. Se há um candidato a prefeito dessa cidade que não pode ir a alguns lugares porque grupos criminosos dominam, isso não é um problema do candidato, mas do Rio”, disse o deputado. "

Fonte: Veja On Line

sexta-feira, 1 de junho de 2012

SAUDADES DO MARACANÃ- por José Trajano




Havia uma espécie de ritual. Durante a semana, o encontro era num barzinho no Leme para traçar os planos para o domingo. Entre um gole e outro eram definidos o cardápio do almoço (com direito a entrada), a marca da cerveja (geralmente a Bohemia, que na época vinha mesmo de Petrópolis) e a sobremesa (quase sempre pavê de chocolate). Foi assim durante dezenas de domingos. Anos a fio. Eu, Zé Carlos, Calazans, Toninho éramos fixos. Dois ou três amigos menos assíduos completavam a turma que, como se fosse compromisso sagrado, se reunia na casa de minha mãe, Nilza, para o banquete dominical. O melhor, porém, estava por vir.



Depois da mesa farta e de uma dúzia de cervejas, seguíamos para o Maracanã. A pé. O maior do mundo ficava a uma boa caminhada de casa, no Largo da Segunda-Feira. Às vezes, exaustos e empanturrados pela comilança, pegávamos um bonde, que podia ser o 63 (São Francisco Xavier) ou o 75 (Lins de Vasconcelos). O divertido era ir a pé, mexendo com os que passavam de ônibus ou de carro. Muitas vezes o pau quase quebrava entre nós e os torcedores adversários. Mas havia, entre os da turma, enorme solidariedade. Se o América não jogava – naqueles tempos o Ameriquinha mandava suas partidas no Maracanã –, torcíamos para o time da maioria. De um modo geral, a gente torcia ou para o América ou para o Flamengo, time do Calazans e de Faquito, por exemplo. Fim de jogo, nos abraçávamos. Se o time ganhasse, festa. Em caso de derrota, xingamentos até o último jogador do time deixar o campo. E a turma repetia o trajeto de volta a pé. Com direito a paradas num bar quase em frente ao Colégio Militar, para comer sardinhas, ou em outro, do Largo da Segunda-Feira, para jogar sinuca. Voltávamos para casa mais companheiros do que fôramos. Era a hora de tocar violão ou de ouvir LPs de jazz e bossa nova.



Dia seguinte, tínhamos que pegar no batente. Estava deserto e adormecido o gigante do Maracanã, como dizia Valdir Amaral, locutor preferido do pessoal, que também não podia viver sem os comentários de João Saldanha, companheiro de Valdir na Rádio Globo. Antes de pegar no sono, ficava deitado na cama revendo como num filme as imagens do jogo. Os gols do América, a vibração da torcida, os gritos do juiz, nossas caras de felicidade ali na arquibancada de cimento, pulando agarrados uns aos outros. Com o tempo a turma se desfez. O América também. Mudei de bairro e, mais tarde, de cidade. Nunca mais vivi um domingo como aqueles, regados a Coquille Saint-Jacques, que dona Nilza fazia como ninguém, copiando uma receita que conseguimos com o maître de um restaurante do Leme. Só o Maracanã permaneceu ali. Gigante. Pagaria o preço que custasse por um ingresso para poder ver, nem que fosse por uma única e derradeira vez, meu time campeão ao lado daquela turma. A dos domingos mais maravilhosos que tive em minha vida. Os domingos do Maracanã.


Trajano, meu jornalista predileto, assina alguns dos melhores momentos da Imprensa brasileira. É o sobrenome da ESPN Brasil, canal onde foi diretor de jornalismo por 17 anos. A carreira do homem que praticamente criou a emissora em 1995 começou a ser escrita entre os anos de 1963 e 1964, quando o menino de 16 anos começou a trabalhar no Jornal do Brasil.