sábado, 29 de maio de 2010

BANZO Capítulo 7




Uma história em doze capítulos e um epílogo


Estar nua no Princesa. Essa é minha lembrança mais viva.

A rede em que ELE pescava era um lençol incompleto que recebia meu corpo ávido e entregue. Eu não era mais menina e estava longe de ser uma mulher. E ELE...Abria caminhos em meu corpo que nenhum homem soube percorrer novamente. Incansável, poderoso e pleno. Constante como as remadas que nos traziam a recantos do mar que somente ELE conhecia. O meu corpo era repleto de segredos que ELE desvendava com urgência... E sem nenhuma pressa.

O Princesa era nosso leito. O mar e as estrelas nossos cúmplices.

Nessas noites compartilhadas com ELE, novos segredos eram sempre revelados. E eu me revelava com eles. E eu me revelava a ELE. Nessas noites eu aprendi a me conhecer. E conhecia a ELE e ELE a mim. E entre brigas e reencontros nos desbrávavamos sem nenhum pudor... E nos sentíamos cada vez mais puros... Nossa nurdez tornava-se um estado natural de profundo amor.O mundo inteiro estava nu aos nossos olhos. O mar, os barcos, as redes repletas de peixes, o Sol, a chuva, a comida na mesa de jantar. O mundo se desnudava conosco e nos meus sonhos de fim de tarde, era ELE, nu, que me esperava no mar, no Sol, no Princesa, na mesa de jantar. E quando a noite chegava e o mundo todo dormia...Tudo recomeçava! Todas as noites!

Quanto tempo durou isso? A menina que existia em mim ficava mais distante no espelho.Noite a noite. Até o mundo nos chamar de novo a sua lama.

ELE me deu a notícia com a voz calma e baixa e os olhos lutando com lágrimas inevitáveis. A mulher que eu me tornava não aceitava que ELE se fosse. Na primeira noite em que ELE partiu queimei o Princesa. As lágrimas derramadas nessa noite deixaram marcas que senti em meu rosto por muito tempo.

A noite tornou-se vazia. Um imenso deserto nascia em meu corpo e em minha alma.

Mas quando olhava o mar eu sabia que ELE voltaria. Quando outros homens surgiram, eu sabia que ELE voltaria. Quando meus filhos nasceram, eu sabia. Quando meus netos chegaram, eu também sabia.E o mar também. O inevitável retorno dELE era um segredo meu com as ondas do mar. Elas me diziam toda manhã - "ELE vai voltar". E ELE nunca chegava!

Eu sabia porque via o Princesa todas as noites e todas as manhãs na areia da praia. Eu sabia porque nunca deixei de me sentir pura. Eu sabia porque o mundo inteiro continuava nu.

E ELE voltou...

E um novo rosto habita meu espelho.

A notícia de que ELE saiu para o mar com seu irmão e um jovem pescador chegou logo depois. Enquanto tentava decifrar esse novo rosto que fazia morada em mim. Eu sabia o que aconteceria e fui esperá-lo na praia.

Fui dormir e ELE estava nos meus sonhos. Ainda (e sempre) nu. O Princesa queimava e ELE o levava para o mar assim mesmo. ELE nu remando o Princesa em chamas nas águas escuras. Acordei. E senti na pele o que aconteceria. Esperei a notícia chegar. Ela veio pela manhã.Como fez há cinquenta anos ELE partiu só e sem destino rumo ao mar. Durante os três primeiros dias tranquei as janelas e fiquei sozinha na escuridão do meu quarto, evitando o espelho e esperando que ELE voltasse.

Mas eu sabia...Sabia o que foi dito e escolhido há cinquenta anos. Sabia o que tínhamos nos dito três dias atrás. Sabia o que teria que escolher. Eu sabia. Sempre soube. Meu corpo pedia um banho. Eu obedeci.

Poucas roupas. Um guarda chuvas. Alguma comida. Era tudo que levava quando saí de casa sem olhar para trás.

O irmão dELE estava na praia com o garoto que pescou com eles. Em silêncio comemos. Trocamos poucas palavras. Todos esperavam algum tipo de sinal. Eu sabia o que tinha que fazer. Eu sabia o que tinha que dizer. E disse.

"- ELE não vai voltar dessa vez."

E todos sabiam o que fazer. Enquanto o menino colocava o barco na água e o irmão dELE me ajudava a subir nele eu entendi o novo rosto que tinha aparecido em meu espelho. Pela primeira vez em cinquenta anos, eu não sabia de nada.

O mar nos recebia com carinho. Era um bom sinal.

Tudo mais era incerteza.


Fim do Capítulo 7

domingo, 23 de maio de 2010

BANZO- capítulo 6


Uma história em 12 capitulos e 1 epílogo

Capitulo 6

" - O que estamos fazendo?"

"- O que parece?"

"- Eu sei o que parece,mas o que realmente estamos fazendo?

"- Não foi pra isso que voltamos?"

"- Foi?"

"- Para que estão? Ver nossa antiga casa como dois velhos saudosos?

"- Não é isso que somos no fundo?"

"- Não,é o que somos na superfície."

"- ..."

"- Mais alguma pergunta velhinho?"

"- Por que trouxemos ele?"

"- Não fazemos isso há cinquenta anos. Podemos precisar de ajuda."
Não precisávamos. Eu preparava a rede com a mesma destreza de sempre. Meu irmão remava com os braços firmes na direção dos peixes que ele sempre soube onde encontrar. O garoto de 14 anos nos perguntava de nossas cicatrizes. Meu irmão inventava histórias vagas, distantes e fantasiosas que o garoto fingia acreditar. Tudo parecia certo. Meu irmão parou o barco e ficou em silêncio. Um silêncio tão profundo que o próprio mar respeitava. Finalmente perguntou.

"- A rede está pronta?"

"- Sim."
E com a serenidade de quem cumpre um ritual milenar a jogamos no mar.
O pescador estava de volta.
Uma pequena multidão nos esperava com curiosidade na areia da praia. Apostava-se o que dois velhos estranhos e um moleque conseguiriam no mar. Homens,mulheres,crianças,jovens, velhos e ELA. Nosso novo barco voltou carregado de peixes como há muito tempo não se via. Alguns velhos pescadores finalmente nos reconheceram e nossos nomes e histórias de juventude estavam em todas as casas e em todos os bares. Não sem uma dose de exagero (pois como se sabe,o tempo transforma fatos em histórias,e histórias sempre obedecem a quem as conta)
Preparamos nosso jantar.Comemos.Lembramos com os velhos e jovens que nos cercavam os fatos antigos transformados em histórias. Bebemos e deixamos que tantas histórias não nos pertencessem mais. O que era secreto continuava secreto. Fomos dormir em redes colocadas nas árvores a beira mar a espera do que nos prometia o amanhecer.
Tudo parecia certo.
Antes de dormir meu irmão dizia.
"- Que estranho. Sentir tanta vida dentro de mim e estar tão perto da morte." Eu ouvi e não escutei. Deixei que a embriaguez se transformasse em sono. Sonhei meus sonhos distantes de jovem pescador. Acordei de madrugada. Meu irmão colocava seu barco no mar e penetrava decidido como sempre nas águas escuras.
Sozinho. Sem nenhuma estrela a mostra para lhe fazer companhia.
Seus pés nunca mais pisariam aquelas areias.

Fim do capítulo 6


Continua

sábado, 22 de maio de 2010

Recado aos amigos distantes- Cecília Meirelles


Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.
Nem sempre os que estão mais perto fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto, todos sabem quando é dia.
Pelo vosso campo imenso, vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso e me dou tantos trabalhos.
Não condeneis, por enquanto, minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto, fico vossa prisioneira.
Por mais que longe pareça, ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.

CARTA EM BUSCA DE DOADORES DE MEDULA ÓSSEA

Niterói, Maio de 2010

PREZADOS FAMILIARES e AMIGOS:

Estamos empenhados em movimentar algumas campanhas em busca de um doador de medula óssea ou de um cordão umbilical para nosso filho Leonardo, hoje com 32 anos, portador de aplasia de medula óssea. As campanhas não são apenas para um paciente, pois o maior intento é aumentar o número de doadores no REDOME (Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea), de modo que toda e qualquer campanha é benéfica a qualquer doente, respeitando-se a listagem e a ordem de inscrição.

Entretanto, enquanto as campanhas não se iniciam, escrevemos esta carta e pedimos aos que residem em cidades que tenham postos de coleta, que se preparem para ser um doador. Convidamo-nos, além disso, a visitar a página da AMEO – ASSOCIAÇÃO DE MEDULA ÓSSEA, na Internet, muito elucidativa e criteriosa: www.ameo.org.br . Lá vocês encontrarão os endereços em todas as grandes cidades brasileiras onde poderão fazer a doação, além de todas as informações indispensáveis ao processo. Não é necessário e nem possível fazer a coleta direcionada a algum paciente.

Quem estiver grávida e quiser e puder doar o cordão umbilical do bebê, SEM CUSTO, poderá receber toda a orientação. O cordão umbilical tem a vantagem de não se exigir compatibilidade total: 70% já atendem ao processo. Infelizmente, gratuitamente essas doações só estão sendo feitas no Rio de Janeiro, aqui no Brasil. Reitero: na página da AMEO vocês encontrarão todas as preciosas informações.

Confiamos na generosidade de todos e pedimos que divulguem esta mensagem. Abaixo, esclarecemos nossas ascendências familiares na esperança de que assim haja maior facilidade de se encontrar um doador compatível.

Desde já, agradecemos a colaboração que puderem dar e nos colocamos à disposição para o que se fizer necessário:



Carlos Orlando Yucif Maia e Rita Maria de Abreu Maia

Contatos: cymaiari@gmail.com ou ritabreumaia@gmail.com

21-26092906

Ramos familiares:
Assis Maia – que se estabeleceram no Norte Fluminense. Os MAIA vindo do Norte de Portugal e os ASSIS de Minas Gerais.

Yucif – libanês Said Yucif, também estabelecido pelo Norte Fluminense. Família aparentemente pequena.

Perlingeiro – vindo da Itália e indo para Santo Antonio de Pádua, de onde se espalhou para o Rio de Janeiro, e cidades do Norte e Noroeste Fluminenses.

Abreu – vindo da Ilha da Madeira, estabeleceu-se por todo o Norte Fluminense, realizando casamentos consangüíneos com Perlingeiro e Picanço.


sexta-feira, 21 de maio de 2010

Sem receita - Lya Luft


Não há roteiro ou bula, nem há receitas ou teorias que nos ajudem.
Como Joana d'Arc ou Dom Quixote,
guerreiros e patéticos ao mesmo tempo,
brandimos palavras e criamos lemas,
desfraldamos bandeiras e buscamos as nossas glórias.
Dar ao mundo filhos decentes, produtivos,
que por sua vez vão construir vida,
profissão e família
com um grau razoável de neurose e drama,
é uma glória.



in Múltipla Escolha - pág. 92

Uma pitada de Neruda


"Ainda que chova,
ainda que doa
Ainda que a distância
Corroa as horas do dia
E caia a noite sem estrelas
O mundo brilha um pouquinho mais
A cada vez que você sorri."

Pablo Neruda

BANZO capitulo 5‏


Banzo
Uma história em doze capítulos e um epílogo



Capítulo 5
Eu nunca saberia o que foi dito naquele reencontro.
Sei apenas o que meus olhos viram. Eles ficaram parados frente a frente durante certo tempo. Frases curtas. Silêncios. Outras frases curtas. Um olhar vago para o mundo e atento entre eles. Gestos contidos. Risos tensos. E lágrimas de ambos. Lágrimas sem nenhum abraço. ELA limpou as próprias lágrimas. O sol secava as lágrimas de meu irmão. Olham o mar juntos e em silêncio.ELA quebra a quietude. Meu irmão aponta pra mim. ELA me cumprimenta com a cabeça.
E penso em como é difícil contar uma história de amor sem nunca tê-lo vivido.
Voltam a olhar o mar. E misteriososamente conversam livres de toda a tensão inicial. Os risos tornam-se calmos. As lágrimas são recebidas em faces tranquilas. A maré avança mais e beija nossos pés. Há quanto tempo estamos aqui? Difícil saber... Quanto tempo...
Meu irmão se despe de suas velhas roupas e invade o mar com o peito nu, seu velho corpo guardando ainda um grande apetite de vida. As ondas explodem em seu peito como se ele sempre fizesse parte daquela paisagem, como se ele fosse uma das inúmeras rochas que há milênios habitam o nosso mar. E ele as recebe. ELA o admira da areia. Os olhos serenos e as pernas fortes pousadas na areia. E ficamos assim durante um tempo incerto.Três velhos sentindo nos ossos, na pele e na alma que a vida nos pedia algo a mais. Algo que ainda não sabíamos definir. Apenas uma coisa era certa.
Algo finalmente morria naquela manhã.
Meu irmão deixava as águas e as ondas que ainda procuravam sua pele.E tudo nele parecia diferente. A forma de andar, o jeito de olhar o mar. o modo como olhava ELA. tudo nele parecia distante e estranhamente familiar. ELA percebeu. Não olhou para as inúmeras cicatrizes que a guerra trouxe para seu corpo. Viu nele, algo novo que ninguém sabia decifrar. Eu fui o primeiro a ver de fato.
As ondas levaram o caçador.
Entre eles a atmosfera era de indefinição. Os olhares fugiam e se procuravam. As palavras pareciam desencontradas. Um impulso tomou as mãos dELA e quando percebemos SUA mão já tocava o rosto de meu irmão.como se presenciasse um estranho nascimento. Confusa, deixou-o para trás. Ele ficou um tempo parado como se sentisse uma espécie de eco do toque dELA em sua face.
Fui a seu encontro.
"- Estava pensando em visitar nossa antiga casa." disse a ele.
"- Não temos tempo pra isso." ele disse, e sorriu antes de completar...
"- Precisamos de um barco."



Fim do Capítulo 5

domingo, 16 de maio de 2010

Esforços- Charles Chaplin


"Se um dia tudo lhe parecer perdido,
lembre-se de que você nasceu sem nada,
e que tudo que conseguiu foi através de esforços
e os esforços nunca se perdem,
somente dignificam as pessoas.”

Sensibilidade demais- Martha Medeiros


Na hora de listar as qualidades que a gente quer encontrar nas pessoas com quem iremos nos relacionar vida afora, está lá a indefectível “sensibilidade”.
A gente quer que o patrão seja sensível e não um grosso. A gente quer que nossa amiga seja sensível e não um trator. A gente quer - e como quer! - que nosso namorado seja sensível e não um machista brucutu.
Encontrar sensibilidade nos outros é meio-caminho andado para o entendimento. E sermos, nós mesmos, sensíveis, também é um filtro bem-vindo, é a sensibilidade que permite nossa comoção diante de um quadro, de uma música, de um amor que nos arrebata ou de uma perda irreversível.
Mas admito que sinto uma certa inveja daquelas pessoas que são sensíveis mas não se tornam vítimas da própria emoção. Porque sensibilidade demais esgota a gente.Tem horas em que o filtro não filtra coisa nenhuma: permite que a gente seja atingido profundamente por coisas que mereceriam menos entrega. Cultivamos mágoas por coisas que nos aconteceram 15 anos atrás, remoemos culpas que já foram mais que perdoadas e esquecidas, temos nosso sistema nervoso totalmente abalado porque alguém compreendeu mal nossas palavras, sofremos por questões insolúveis, sofremos, sofremos, e sofrer dá uma senhora consistência à nossa vida, mas como cansa.
Às vezes me farto dos ideais que persigo e que, por serem ideais, nunca se concretizarão plenamente. A vida é defeituosa, imprevisível, nada é exatamente como a gente gostaria que fosse - e sensibilidade é algo que faz a gente aceitar isso e ser feliz do mesmo jeito. Já sensibilidade demais dá nos nervos e fatiga à toa. Uma certa frieza nos faz andar mais rápido, não nos retém.
Como se mede, se pesa, se percebe a sensibilidade suficiente e a sensibilidade excessiva? No quanto ela joga a nosso favor ou contra. Sensibilidade suficiente refina você, lhe dá um foco na vida. Já a sensibilidade excessiva faz de você protagonista de um dramalhão mexicano. Temos escolha? Não se escolhe, é o que se é. Os que são sensíveis na medida aproveitam a vida sem duras cobranças internas. Já a turma dos excessivos pega canetas, câmeras, pincéis, sapatilhas, instrumentos, e transforma o excesso em arte. Ou faz besteiras. Cada um encontra onde colocar sua sensibilidade, uns com leveza, outros com fartão de si mesmos. Os únicos que seguem não entendendo nada são os insensíveis.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Banzo- Capítulo 4


Capitulo 4

Há cinquenta anos eu dormia meus sonhos de jovem pescador. O mar sussurava desejos, medos e tentações nos meus ouvidos. Minha alma aceitava os suspiros trazidos pelas ondas e desenhava meu sonhar inquieto com imagens de quereres proibidos e ardentes. O mundo e os que sonhavam nele pareciam repousar em oceanos mais tranquilos.
Nem todos.
Uma onda mais forte quebrou na areia. Um vento forte e úmido invadiu meu rosto e meus sonhos. Acordo a tempo de ver meu irmão saltar a janela rumo a escuridão.
Foram muitas noites de fugas escondidas e muito dias dormindo nas redes de pesca estendidas na sombra do entardecer.
Meu irmão vestiu sua alma de encantamento. e encantado como estava, encantou. Até os peixes pareciam escolher a sua rede para serem pegos.
Em uma mudança de lua a maré virou e sua alma vestiu outras cores. Suas noites eram regidas por lamentos abafados e choros incontidos. Durante os dias contemplava o mar com tristeza.Quando saíamos para pescar trazia do mar apenas o essencial para o sustento da família e as lágrimas escorriam livremente enquanto remava, e secavam demoradamente debaixo do sol.
Nunca me falou nada. Nem eu perguntei. Não era preciso. Enfrentamos esses dias e noites despidos de qualquer palavra inútil, abraçados a uma poderosa e silenciosa cumplicidade.
O tempo se arrastava e trazia novas preocupações.
Em uma noite, meu irmão saiu sozinho para o mar. E não voltava. Passávamos dias e noites em vigília. Saí muitas vezes para o mar em companhia de meu pai e dos pescadores mais experientes. Nenhum sinal dele. Nossa mãe e as mulheres se revezavam na vigília e nas rezas.
Foi quando eu percebi ELA pela primeira vez. Sempre atenta na areia da praia a cada movimento no mar ou na terra.Em um dos meus retornos na busca por meu irmão ELA se aproximou de mim, e percebendo minha desesperança me disse
"- Não se preocupe.O mar nunca vai trair seu irmão. ELE já deve estar voltando."
Falou isso com uma tranquilidade que traía por um momento sua habitual inquietação.
Meu irmão ficou quase quinze dias no mar, no pequeno barco chamado Princesa que ele nunca deixou de amar. Voltou como se nada tivesse acontecido com o barco repleto de peixes, alguns de praias distantes das nossas. E um enorme cação que nenhum pescador viu tao grande.
ELA estava lá, e em meio a festa e os abraços eu vi ELES se olharem como se fossem os únicos a deixar a marca dos seus pés na areia da praia. E eu soube que o encantamento voltaria.
E assim foi. Todas as noites.
Meu irmão voltou com apetite renovado pela vida e se deixou viver como nunca. Em uma quase manhã ele remava rumo ao amanhecer e eu preparava a rede. Sentindo o sol ainda suave no rosto e um acalanto tranquilo do mar, ele pemitiu que seu espírito tomasse a forma de palavra e me contou toda (ou quase toda) maravilha que vivia. O nome dELA e os momentos que viviam juntos eram como uma flor, uma fruta saborosa nos lábios de meu irmão.

...

Cinquenta anos depois ELES se olhavam novamente como se seus pés fossem os únicos a marcar a areia da praia.
E tudo mais se tornou silêncio naquele momento.
Bruno Peixoto
Fim do capitulo 4

Continua

terça-feira, 11 de maio de 2010

O convite - Lya Luft

Não sou areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
não sou apenas a pedra que rola
na marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou mistério.
A quatro mãos escrevemos o roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos a sério.


Lya Luft
(extraído do livro "Perdas & Ganhos", Editora Record - Rio de Janeiro, 2003, pág. 12)

domingo, 9 de maio de 2010

Mulher...mulher...

Em homenagem à minha mãe e a todas do mundo.



Para Oninha


Durante a infância, o menino sempre a teve por perto. Apesar da vida profissional agitada e da luta diária para proporcionar a seus filhos uma vida digna, aquela mãe sempre dava um jeito de fazer um carinho, acompanhar como iam na escola, e nem se importava quando o menino chegava do João XXIII e descia para a casa da avó, sua amada avó. Não se importava porque sabia o quanto aquele menino a amava.
Mãe, esposa, lutadora.
Deixou Campos e acompanhou seu marido na nova empreitada em Cabo Frio. Durante os 9 anos que ali moraram, muito sofrimento e algumas alegrias. Triste, começou a fumar. Achou que de alguma forma, aquele maldito pedaço de nicotina poderia ajudá-la nos momentos de insegurança. Graças a Deus superou isso tudo. Mesmo com os percalços, nunca deixou seus filhos de lado. Mãe atenta, amorosa e quando necessário, brava. Aquele moleque, com seus 13 anos, adorava leite moça. Sem saber manejar o abridor de latas, pegava uma faca e um socador, e o problema estava resolvido. Numa dessas ocasiões, porém, ele exagerou. Abriu 3 latas e deixou na geladeira. Eis que a mãe descobriu, e obrigou o garoto a tomar o que tinha nas 3 latas e ainda abriu as duas que restavam no armário. Era a maneira encontrada para educá-lo. Queria que o filho aprendesse a dividir as coisas com os irmãos. Na época, adiantou. Depois de uma dor de barriga enjoada, ficou meses sem querer saber de leite moça. E o garoto ficou menos egoísta.
Em 1989, aquele menino, já um adolescente de 17 anos, foi agredido na escola, após ter vencido uma eleição para representante de turma. Era o que faltava para a zelosa mãe decidir: "Vamos voltar para Campos!".
E assim aconteceu. Num fim de tarde ensolarado, chegou em casa e avisou aos filhos. Naquela noite, conseguiu um caminhão e colocou o que ainda restava de sua vida. Os 9 anos em Cabo Frio foram traumatizantes. O casamento já estava em crise há tempos e o que importava de verdade para aquela guerreira era a felicidade da sua cria. Visionária, sabia que em Campos, eles seriam mais felizes.
Vinte e um anos depois, aquela mãe ainda passou por maus bocados. Perdeu dois de seus quatro filhos em trágicos acidentes. Mas, a cada dia ela vai se superando. Para aquele molecote que abria leite moça escondido, ela sempre foi e será um exemplo de vida. Mãe em tempo integral. Amor, zelo, carinho, broncas, mais amor, mais amor...só amor....
É o que ela prega em sua vida. Virou mãe de muitos outros ao longo desses anos. Não se furtava a abrir sua casa para os amigos dos filhos. Ainda hoje é lembrada por isso. Virou avó e aí mais uma vez, a porção materna fala mais alto. Não à toa, os netos a chamam de "voinha". Existe coisa mais terna do que chamar sua vó de "voinha"??
Eu a chamo de Oninha. Minha mãe, meu amor, meu tudo.
PS- Quero também deixar meu beijo com muito amor e gratidão para algumas mães que marcaram a minha vida: Anita, Gê, Nina, Anamaria, Ceila, Edna, Cenira e Helza.

sábado, 8 de maio de 2010

Abismo- Jorge Vercilo e Ana Carolina

Ousadia- Lya Luft


"Apesar de todos os medos, escolho a ousadia.
Apesar dos ferros, construo a dura realidade.
Prefiro a loucura à realidade,
e um par de asas tortas aos limites da comprovação e da segurança.
Eu sou assim, pelo menos assim quero me imaginar:
a que explode o ponto e arqueia a linha,
e traça o contorno que ela mesma há de romper.
Desculpem, mas preciso lhes dizer: Eu quero o delírio."

Voz no ouvido- Pedro Mariano

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Banzo- Terceiro Capítulo


Capítulo 3

As ondas invadiam a areia branca da praia indiferentes ao que se passava no corpo e na alma do caçador.
Suas mãos fortes e poderosas que durante anos empunharam com firmeza as armas de incontáveis guerras tremiam e suavam. Ele rosnou algo parecido com um lamento e conseguiu dominar usas mãos. Tentou falar algo, mas as palavras saíram confusas e cortadas. Fechou os olhos, respirou fundo, voltou a abrir os olhos no mesmo instante em que uma onda finalmente beijou os seus pés, e como se acordasse de um sono profundo de muitos anos finalmente disse:
" - Como é difícil envelhecer."
Sua voz parecia ter vindo de muito longe e todo o seu corpo, toda a sua alma, pareciam estar ainda nesse lugar distante e secreto esperando por um sinal, um chamado qualquer que os trouxessem de volta. Apenas seus olhos pareciam estar no tempo presente. Analisando, guardando cada movimento do corpo dELA. Os gestos, a forma de soltar os cabelos, o andar. ELA. Era ELA que vinha pela praia, olhando como sempre, desde sempre, os barcos voltando do mar.
O mar e o tempo foram generosos com a beleza que nunca esquecemos. ELA caminhava com vitalidade e trazia nos seus passos uma serenidade desconhecida a mim e ao meu irmão. Sempre lembrava (e sei que meu irmão também) do seu jeito inquieto e curioso.
"-Ela está vindo pra cá."
Foi o que disse ao romper o silêncio. Disse isso com o mesmo tom baixo, cortante e urgente que usava ao denunciar os inimigos que se aproximavam nas inúmeras guerras partilhadas com meu irmão. Ele reconheceu o tom e me repreendeu com os olhos.
"- Não traga nossas lutas para cá." ele me disse.
Ele olhou em volta e percebi que procurava o Princesa na praia e na memória. Rosnou novamente e...
" - Já esperei tempo demais."
Seguiu firme na direção da mulher e do tempo que vinham em sua direção.

Bruno Peixoto
Continua

Próximo capítulo: domingo ou segunda.

Amor pra recomeçar- Frejat


Eu te desejo
Não parar tão cedo
Pois toda idade tem
Prazer e medo
E com os que erram
Feio e bastante
Que você consiga
Ser tolerante
Quando você ficar triste
Que seja por um dia
E não o ano inteiro
E que você descubra
Que rir é bom
Mas que rir de tudo
É desespero
Eu te desejo muitos amigos
Mas que em um
Você possa confiar
E que tenha até
Inimigos
Pra você não deixar
De duvidar
Desejo, que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor
Pra recomeçar, pra recomeçar...

terça-feira, 4 de maio de 2010

Provisório- Martha Medeiros


"Faço menos planos e cultivo menos recordações.
Não guardo muitos papéis, nem adianto muito o serviço.
Movimento-me num espaço cujo tamanho me serve,
alcanço seus limites com as mãos,
é nele que me instalo e vivo com a integridade possível.
Canso menos, me divirto mais,
e não perco a fé por constatar o óbvio:
tudo é provisório, inclusive nós. "

BANZO - Capitulo 2


Meu irmão cantava.
Olhei-o com espanto. Desde o dia que partimos ele pareceu fazer um voto de semi-silêncio. Falava apenas o fundamental. Seu silêncio foi cuidadosamente cultivado ao longo de muitas décadas como uma flor rara de uma floresta obscura; e afastou suas inúmeras mulheres e seus inúmeros filhos de seu convívio.
E agora, sentindo a brisa úmida de seu mar, ele cantava.
Era uma música dos tempos de nosso pai que fazia sucesso nos bares dos pescadores. Ele olhava a tudo com malícia e inocência. E sorria. E rompendo de vez seu voto de silêncio ele relembrava com sabor e frescor histórias de nossa juventude. Em nenhuma ELA estava. Não o questionei. Estava por demais fascinado em ver esse seu lado secreto de contador de histórias. Éramos já velhos, e essa nova faceta aflorava pela primeira vez.
Uma nova primavera pode aparecer a qualquer momento em nossa vida.
E ouvindo me foi revelado mais um segredo que as palavras não diziam. Percebi que todas aquelas histórias que ele contava aconteceram antes ou depois de algum encontro com ELA. E que ELA, era o buraco, o vazio que ligava uma história a outra.
Meu irmão se calou.
Estávamos na beira do nosso mar. O Princesa ainda aparecia em nossas lembranças. Ficamos em silêncio durante muito tempo, deixando que as velhas lembranças desocupassem a nova vista que estava a nossa frente. Tudo mudou menos o mar. Sempre igual.Nunca o mesmo. Ele. O Mar.
"- Será que ELA está viva?"
Foi o que ele me disse depois do longo silêncio. E sua voz voltou a ter vinte anos. "- Sim,ela está". Foi o que pensei, mas o pensamento calou em minha boca. Tudo me era forte e intenso e me senti frágil pela primeira vez em anos. O Princesa não estava lá, e ainda sentíamos sua ausência.
Sob o sol, no princípio do mar que estendia a nossa vista para além de nós mesmos, a pergunta de meu irmão era respondida. Por um momento pensei ser mais uma lembrança o que via. Não era. Lembranças não envelhecem.

ELA estava lá.

Continua
próximo capítulo na quinta-feira


(Se alguém que leu, gostou ou quer fazer alguma observação, pode mandar um e-mail para Bruno: brunopeixotocordeiro@gmail.com.)

No assunto coloque "Sobre Banzo"

sábado, 1 de maio de 2010

"Banzo" por Bruno Peixoto

Tenho um puta orgulho do meu irmão Bruno Peixoto. Saiu de casa novo, foi à luta no Rio e dali rodou para BH, Cabo Frio, Niterói e outras cidades. É ator de teatro, fotógrafo, iluminador, escritor, e acima de tudo, um lutador. Mandou-me este e-mail ontem.

"Olá meus amigos

Quem me conhece sabe que tenho o gosto por histórias. Já escrevi algumas e outras sempre rondam a minha cabeça. A maior parte envolvendo o teatro. Por motivos diversos, nenhuma foi montada. A história que começo a enviar a vocês nada tem a ver com teatro, nem há qualquer expectativa a respeito. Em fevereiro me despedi de uma pessoa muito querida e senti um vazio imenso. Como minha rotina atual me força a ficar longe de vocês, meus amigos mais queridos,e estou vivendo questões de trabalho ainda incertas, simplesmente escrevo essa pequena história apenas para me fazer companhia em um momento de transição. E a companhia dessa história me ajuda. O formato é simples. Uma história de doze capítulos e um epílogo contada em pequenos microcontos.Contos pequenos que se lêem rapidamente em pontos de onibus enquanto se espera por ele (no caso de vocês para poupá-los de perder muito tempo na correria do dia a dia). Mandarei dois capítulos por semana e em maio vocês saberão o final. Como uma série que se acompanha. Como eu disse é só uma história pra me fazer companhia. Ninguém precisa fazer comentário nenhum se não quiser, e se não gostar e quiser sair da lista é só pedir. A amizade continua (mas vai ter vingança rsrsrs)

Como a história tem doze capítulos escolhi doze pessoas que gosto muito e que são muito especiais pra mim. Já mandei para doze pessoas antes de vocês e me senti mais seguro de mandar a vocês com muito carinho.Se tiver algum erro de português, desculpa. E se gostarem e quiserem enviar para alguém (há muitos queridos em comum fora da lista), fiquem a vontade. É só lembrar que é uma história em série em doze capítulos e um epílogo. Sem mais delongas, vamos a história.beijos

Bruno"


Dito isto, começo a postar aqui no "Todo Amor...", a história escrita por Bruno. E assim continuarei fazendo nos próximos sábados.


"BANZO
Capitulo 1

Cada detalhe daquele dia era sempre lembrado. O gosto da comida, o vento,os gritos que vinham da feira, o cheiro forte dos peixes mortos, o ruído do mar, o cheiro do mar,o infinito do mar e de novo o mar.
Meu irmão esperava por ELA no Princesa. O primeiro barco que ele conduziu. Em casa tudo estava guardado da melhor forma possível. Ele esperaria sob o sol por três horas até que nossa mãe o chamasse pela última vez. ELA não viria. Eu o vi se encaminhar em direção ao mar e deixou que as ondas molhassem seus pés. Deixou que a areia afundasse seus pés na areia.
Eu fui buscá-lo.
Esperava encontrá-lo com lágrimas nos olhos. Meu irmão nunca teve medo de mostar suas emoções. E ele amava profundamente tudo aquilo que estávamos prestes a deixar. O vento, os gritos da feira, o cheiro dos peixes, o mar, o mar e o mar. E ele amava sobretudo ELA.
E ELA não veio.
Ele olhava o mar como se estivesse nele. Não trocavam olhares como tantas vezes pareciam fazer (ele e o mar). Algo nele se transformava. Olhava o mar com os olhos de um caçador.
E meu irmão não chorava.
Depois de um instante de silêncio ele me disse " - Quero te pedir um favor." E sua voz tinha envelhecido muitos e muitos anos.
" - Fale." eu respondi. E ele sorriu. Um riso desprovido de alegria e esperança. E sem deixar de olhar o mar com seus olhos de caçador ele me disse.
" - Não me deixe morrer longe daqui."
Eu não deixei.
Durante muitos décadas o caçador viveu e lutou sem nunca voltar a ver o seu mar. Sem nunca voltar a ver ELA.
Até hoje.
Cada detalhe daquele dia era sempre lembrado. Cada detalhe de hoje será sempre lembrado.
O caçador voltou. "

Fim do capitulo 1.

Continua...