sexta-feira, 21 de maio de 2010

BANZO capitulo 5‏


Banzo
Uma história em doze capítulos e um epílogo



Capítulo 5
Eu nunca saberia o que foi dito naquele reencontro.
Sei apenas o que meus olhos viram. Eles ficaram parados frente a frente durante certo tempo. Frases curtas. Silêncios. Outras frases curtas. Um olhar vago para o mundo e atento entre eles. Gestos contidos. Risos tensos. E lágrimas de ambos. Lágrimas sem nenhum abraço. ELA limpou as próprias lágrimas. O sol secava as lágrimas de meu irmão. Olham o mar juntos e em silêncio.ELA quebra a quietude. Meu irmão aponta pra mim. ELA me cumprimenta com a cabeça.
E penso em como é difícil contar uma história de amor sem nunca tê-lo vivido.
Voltam a olhar o mar. E misteriososamente conversam livres de toda a tensão inicial. Os risos tornam-se calmos. As lágrimas são recebidas em faces tranquilas. A maré avança mais e beija nossos pés. Há quanto tempo estamos aqui? Difícil saber... Quanto tempo...
Meu irmão se despe de suas velhas roupas e invade o mar com o peito nu, seu velho corpo guardando ainda um grande apetite de vida. As ondas explodem em seu peito como se ele sempre fizesse parte daquela paisagem, como se ele fosse uma das inúmeras rochas que há milênios habitam o nosso mar. E ele as recebe. ELA o admira da areia. Os olhos serenos e as pernas fortes pousadas na areia. E ficamos assim durante um tempo incerto.Três velhos sentindo nos ossos, na pele e na alma que a vida nos pedia algo a mais. Algo que ainda não sabíamos definir. Apenas uma coisa era certa.
Algo finalmente morria naquela manhã.
Meu irmão deixava as águas e as ondas que ainda procuravam sua pele.E tudo nele parecia diferente. A forma de andar, o jeito de olhar o mar. o modo como olhava ELA. tudo nele parecia distante e estranhamente familiar. ELA percebeu. Não olhou para as inúmeras cicatrizes que a guerra trouxe para seu corpo. Viu nele, algo novo que ninguém sabia decifrar. Eu fui o primeiro a ver de fato.
As ondas levaram o caçador.
Entre eles a atmosfera era de indefinição. Os olhares fugiam e se procuravam. As palavras pareciam desencontradas. Um impulso tomou as mãos dELA e quando percebemos SUA mão já tocava o rosto de meu irmão.como se presenciasse um estranho nascimento. Confusa, deixou-o para trás. Ele ficou um tempo parado como se sentisse uma espécie de eco do toque dELA em sua face.
Fui a seu encontro.
"- Estava pensando em visitar nossa antiga casa." disse a ele.
"- Não temos tempo pra isso." ele disse, e sorriu antes de completar...
"- Precisamos de um barco."



Fim do Capítulo 5

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